Nasci em Fortaleza. Sou Fortaleza. Criança ainda acompanhava meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, que foi Presidente do Fortaleza Esporte Clube nos anos 50/60, aos treinos no Quartel do 23º BC, às concentrações no Balneário de Pirapora, em Maranguape, e ao velho Presidente Vargas. Depois, meu pai comprou a sede da Rua Júlio César, no Benfica. Era uma casa simples, recuada, uma espécie de bangalô, próxima do Estádio Presidente Vargas. Vieram o Estádio Alcides Santos e a sede do Pici, o Castelão foi inaugurado e o resto todos sabem.
O que não sabem é que na tarde em que meu pai foi enterrado, um domingo, 22 de novembro de 1991, quando voltava do Cemitério Parque da Paz, passei pelo Castelão. Era um FortalezaXCeará. Abri momentaneamente o rádio do carro e ouvi que o Fortaleza perdia por 1X0. Em um diálogo mudo com meu pai eu falei: além de morrer, ainda perde para o Ceará. Fechei o rádio. Cheguei em casa, abri o rádio: Fortaleza 2XCeará1.
Ontem, 11 de dezembro de 2004, era o último jogo do Fortaleza na série B do Campeonato Brasileiro. Segundo os matemáticos e estatísticos, o Fortaleza era o time que tinha menos possibilidade de ir para a primeira divisão, de onde saiu, em parte por arbitragens desastrosas, na única vaga que existia. A outra já estava definida, do jeito Brasiliense de ser. Mas isso é outra história. Pois bem, foi o Fortaleza, o que disputava com mais três, o que matematicamente tinha menos probabilidade de vencer, quem ganhou o jogo e se classificou, a despeito da crônica esportiva do Rio e São Paulo que torcia por Bahia e Avaí e já dava o Fortaleza como permanente na Segunda Divisão. O Fortaleza é assim, surpreende, desmoraliza cronistas esportivos, desfaz projeções estatísticas, faz a gente sorrir e chorar. Faz também a gente voltar a ser menino e ficar ligando para os amigos dividindo a alegria que cura até gripe. E o Fortaleza manda sempre mensagens aos seus dirigentes. Ontem, foi passada uma nova mensagem. O gol da vitória foi de Ronaldo Angelim, que veio lá de Juazeiro do Norte e não dos muitos bondes que vieram de fora e precisam ser devolvidos o quanto antes.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/12/2004.

