O INCONFORMISMO DO OLHAR

Quem olha com mais atenção em geral é inconformado. O que vê não é apenas o que se pretende mostrar. Vê muito mais. Os olhos inconformados fazem leituras, filmam, auscultam, pintam e veem além da paisagem ou da pessoa. Vão lá dentro da alma, da essência e sentem o outro em sua fisiognomonia das aparências e dos gestos. E isso produz uma visão crítica severa, a de entender o outro não pelo que diz, mas pelo que se infere da sua e da nossa história.
Os artistas, especialmente os pintores, escultores, compositores, cineastas, poetas e escritores têm, quase sempre, esse viés. Não se contentam com a realidade aparente ou a aparente realidade. Fixam o olho e extraem a essência, aquilo que não fica exposto, embora seja uma fratura.
Os que viram o filme ´Frida´ puderam observar que ela possuía inconformismo no olhar e isso a fez ser a pessoa que foi, mesmo tendo ao seu lado a figura consagrada do pintor e muralista Diego Rivera. Eram avançados para o seu tempo e os seus olhos viam mais do que o mundo mostrava. Despetalavam a realidade e com o seu inconformismo, a transformavam na loucura real em que viviam.
Virgínia Woolf, tão pouco lida, mas muito comentada depois que um filme mostrou uma réstia da sua vida, era outra pessoa com inconformação no olhar. Acabei de ler ´Mal de Amores´, da consagrada escritora mexicana Angelles Mastretta. A personagem principal, Emília, tem o mesmo mal ou bem. Não repousa o seu olhar apenas nas paisagens de Puebla, mas o distribui por todo o México e dá rasantes na América, sem nunca esquecer de seus dois amores, tão diferentes quanto preservados e relevantes em sua vida singular e dupla. Por aqui há uma mulher de olhar inconformado: Natércia Campos, cansou-se de ser filha, esposa e mãe, e deu a si o direito de construir uma casa com o olhar tão amplo quanto os seus sonhos reprimidos. Sonhos transbordados em prosa tão luminosa quanto a dramática trama de seu livro ´A Casa´, um libelo pouco entendido, mesmo para os que o imaginaram ler com atenção. Será preciso ter olhar inconformado para conseguir ver ´A Casa´ em toda a sua plenitude e assombrações, este livro sobre pessoas, mas com almas e as lamas permeando o seu enredo.
Talvez valesse dizer aos namorados, festejados no próximo dia 12, que deem vazão ao inconformismo preso em seus olhares. Não finjam sentimentos e poupem quem espera amor e não apenas presentes. É preciso ser verdadeiro neste tempo de tantas mentiras. É preciso ter os olhos inconformados para adonar-se da vida, abrí-los para ver além. Depois, fechá-los e ouvir a sua voz interior. A que realmente conta.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/06/2003.

Sem categoria