O INSONDÁVEL – Diário do Nordeste

O que a morte, esta ceifadora, nos mostra a cada vez que nos deparamos com os seus desígnios? Que somos apenas partículas de um cosmo imenso no qual não temos poder ou ingerência significativa. Não colhemos o que plantamos. Plantamos o possível para nós, mas a colheita depende de inúmeros outros fatores imponderáveis. Cada vida é uma proposta de esperança. Baruch Spinoza, filósofo holandês, já no século 17 nos dizia: “Não há esperança sem medo, nem medo sem esperança”. Plauto, comediógrafo latino, séculos antes de Cristo nascer, repetia: “O que não se espera acontece com mais frequência do que o que se espera”. É o insondável a que me refiro no título.
A pessoa humana, entretanto, por mais preparo e empenho que tenha de acertar o viver, vai para o dia seguinte às cegas. E esse dia seguinte é o hoje, o agora, aquilo que está acontecendo ou será o vir-a-ser do amanhã? Cada dia tem a sua luz, o seu vento e o tal do insondável sempre à espreita. Eles incidem de modo e forma distinta sobre os viventes. A fé nos ensina regras básicas de comportamento, mas estamos dispostos a cumpri-las? Assim, vai-se indo no barco do existir com dois remos, a esperança e a incerteza, até que a morte, alcunhada de tantos nomes, nos alcance do jeito que quer e na hora dela.
Nada de fatalismo, acredite, mas mesmo remando com aprumo, sabendo o azimute, usando o GPS possível, tomando precauções e seguindo um plano predeterminado, o casco do barco da vida pode bater em uma pedra invisível. E, parodiando o poeta, há sempre pedras no caminho.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/08/2014.

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