Domingo passado assisti ao filme americano “Passando dos limites”.(Noise). Nele, Tim Robbins protagoniza um cidadão comum, empregado, casado, uma filha, apartamento etc. Ele começa a ficar incomodado com os barulhos noturnos das sirenas dos alarmes dos milhões de carros que, por qualquer razão, são disparados. A partir daí, ele desenvolve um transtorno obsessivo compulsivo que o enfurece ao ouvir o som ensurdecedor de alarmes a qualquer hora do dia ou da noite. Passa, então, de cidadão comum, a ser uma espécie meio paranóide de vigilante desligando cabos das baterias de carros até chegar ao ápice da sua semi-destruição com os pés e marretas, invocando, para si, um “papel social”. Vai preso, reincide, passa 30 dias no xadrez e, ao sair, o casamento é desfeito. Fica, além de obsessivo, desempregado. Procura, então, formar um grande “abaixo-assinado” para coibir a instalação de alarmes em carros. Logo, consegue adeptos para ajudar a mostrar que, em Nova Iorque, ninguém se importa mais quando um alarme soa. Deixemos o filme em suspenso. No dia seguinte, segunda-feira, o professor da FGV, Bresser Pereira, escreveu na Folha de SP, o artigo “Direito ao Silêncio”. Ele reclama dos alto-falantes dos aeroportos brasileiros que incomodam mais que informam. Fala também do que tenho escrito há algum tempo: o zumbido monocórdio dos hélices das torres de energia eólica. Cita até o “Le Monde Magazine”, de 28 de novembro passado, como fonte de clamor de franceses contra o som forte, grave e repetido que parece estar causando insônia, náusea, irritação e até depressão aos vizinhos desses grandes geradores. São duas narrativas distintas. A primeira é ficção, baseada na zoeira de qualquer grande cidade. A segunda, real e comprovada. Não bastam as descolagens e aterragens de aviões, ainda temos que ouvir os alto-falantes dizendo o que já se vê nos monitores de televisão, isto sem falar, nas constantes mudanças de portão de embarque. Além dos alarmes disparados, dos alto-falantes dos aeroportos, há muita coisa mais a fazer barulho. Espaços públicos com cantores e pastores. Pouca gente sabendo se comportar em restaurante. Fala-se alto, gesticula-se e os vizinhos, desconcertados. Nas ruas, camelôs, pedintes, buzinas e caixas de sons de alguns carros ultrapassam, em muito, os limites naturais da tolerância. Falar alto em ambiente público, usar caixas de som ensurdecedoras, acelerar quando o sinal abre são provas inequívocas de falta de educação. Diz o Talmud: “uma palavra vale uma moeda; o silêncio vale duas”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/12/2009

