O MÉRITO INDUSTRIAL

Fico feliz quando vejo pessoas jovens determinadas a ser empresários. Sei como isso acontece. É aquela vontade de ser independente, dono do próprio nariz e de escolher uma área para atuar. Não vai estudar para concursos públicos, não quer ser profissional liberal, o que deseja é criar, transformar e empreender. Tirar algo do nada e torná-lo real, palpável, mesmo que seja uma fábrica de velas. A pessoa que monta, por exemplo, uma fábrica de velas, compra a cera, faz ou manda fazer as formas, um grande fogão e panelões, cordão para o pavio e coloca um nome. Digamos, velas celestiais. O dono da fábrica de velas celestiais sabe que está criando algo para vender, disputar o mercado e, se tiver qualidade e preço, permanecerá. Caso contrário, a tal da mão invisível de que falava Adam Smith se encarregará de por termo à sua iniciativa. As velas servirão para iluminar a morte da empresa.
Imagine que uma pessoa jovem, em vez de fazer velas, resolva, digamos, montar uma pequena indústria de confecções. É um prazer imenso estudar o mercado, escolher modelos, mandar fazer moldes, tecidos, aviamentos, embalagem, marca, distribuição, ajustar as máquinas em uma linha de produção e contratar gente, pois sem gente boa ao lado não se vai a lugar nenhum.Não importa o tamanho ou o negócio que se tenha, o admirável é que o traga seguro na mão, isto é, saiba como fazer para torná-lo rentável e vivo, ano após ano. Este é o grande segredo, pois as empresas morrem muito cedo no Brasil. Tão logo alguém monta um negócio e, orgulhoso, coloca a placa na frente, chega o fiscal municipal perguntando pelo alvará de funcionamento, o IPTU e a vigilância sanitária sai para ver banheiros, vestiários e refeitório.
Depois, vem o fiscal estadual cobrando o ICMS e os livros de entrada e saída de mercadorias. Em seguida e, muitas vezes ao mesmo tempo, entra o Auditor da previdência pedindo as carteiras dos funcionários, os recolhimentos disso e daquilo, enquanto o pessoal do sindicato da categoria dos empregados coloca um alto-falante na porta e pede aumento, diminuição da jornada de trabalho, produtividade etc, mesmo que as vendas tenham despencado, o estoque cresça e os clientes não paguem. Tem também a fiscalização do IPI que chega junto. Se ocorrer de dar um lucro, o imposto de renda fica com um terço do que você produziu. E até agora não se falou ainda do tempo para cuidar da clientela, financiamentos bancários, de certos concorrentes que querem vê-lo arruinado, e da família que cobra, com justo direito, atenção e não entende porque não tira férias. Respira fundo, vê que já não cuida muito bem do seu corpo, dorme mal e, muitas vezes, recorre à bebida ou tranquilizantes para esquecer os problemas que voltam no dia seguinte.
Essa estória acima não é para fazer ninguém desanimar, mas para vibrar com os jovens capazes e corajosos que, mesmo cientes de tudo isso, resolvem ser empresários. Industriais, principalmente. E enaltecer os que, na última quinta-feira, receberam o Mérito da Federação das Indústrias, vencendo o tempo e todas as suas barreiras, injúrias, invejas, desapontamentos, a imensa e desigual carga fiscal brasileira e gerando empregos. Eles sabem como isso é gratificante e, paradoxalmente, difícil de ser compartilhado.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/2004.

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