Fala-se em Natal sem fome. Pensa-se que um, dois ou cem quilos de alimentos aplacam nossa consciência. Cuida-se que um cartão de Natal nos redime dos esquecimentos do ano todo. Pensa-se tanta coisa nesta época. E até se pensa que só agora é preciso pensar mais nos outros. Entender, por fim, que a vida é uma sucessão de elos nos tornando brutos ou gente. Tenta-se usar um spray que espalhe pelo ar a fragrância da fraternidade e, ao mesmo tempo, estanque a dor de tanta gente querida. Gente que está aqui lutando para viver, em meio às apreensões e dúvidas do dia a vir.
A fome não se aplaca com meros quilos de alimentos de segunda. A fome só acabará com atitudes de primeira. Menos melodrama e mais consciência. Menos espetáculo e mais ação. Vivemos num mundo em que se gasta mais na mídia para se dizer que se construiu uma creche que o valor da própria creche. É preciso dar um fim ao mundo do faz-de-conta e viver num mundo em que o outro é quem conta. Não importa o que vai ao ar ou fica escrito, importa o que faço pelo outro, sem que ninguém veja ou saiba. Sem o estardalhaço da fraternidade religiosa ou midiática. É dentro de nós que a fome de aparecer tem que começar a acabar. Tirar das entranhas dos nossos sentimentos as respostas ao bem-querer verdadeiro, em que o outro não seja apenas alguém que vejo, mas com quem interajo, troco sonhos e busco soluções para nossa vida e a dos outros.
Há, certamente, gente a quem amamos, mas é preciso que se tenha a coragem de dizer isso a ele ou a ela. Olha, eu o(a) amo. Vamos nos inteirar, deixarmos de ser meros pedaços de nós mesmos e formar vidas inteiras. Quando tivermos a coragem de amar de verdade, sem peias, aí o mundo vai ficar com menos fome. Não importa quem seja você, nem quão bom se ache. Há muito a melhorar. E isso não é pieguice de época de Natal. É um sacolejo que devemos fazer sempre em nossas vidas. A fome não é só produto da injustiça social. Ela é a cara da nossa indiferença pessoal, desse individualismo que nos isola até dos mais próximos. Prometa a você: vou dizer a alguém que ele – ou ela – é importante para mim. Não importa que ele – ou ela – não lhe dê ouvidos. Insista, invada a sua privacidade e achegue-se. Achegue-se, abanque-se, troque energia, chore, ria dos erros cometidos. Perdoe. Perdoe-se. A vida é assim mesmo, complicada. Descomplique-se, pois. Apresse-se, a fome só se aplaca se você se der. Mexa-se. Feliz Natal.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/12/2002.

