O OTIMISMO DO ROBERTO – Jornal O Estado

Roberto Gaspar é o próprio Otimismo Itinerante. Vive alegre e circula muito. Gosta de ver e ser visto. Ao vivo e em fotos. Transpondo essa energia para o papel, Roberto é livre, descontraído, amável e sabe embaralhar episódios de sua vida, desde a bacia de picolés comprada com o primeiro dinheiro ganho até vivências em Canoa Quebrada onde se mistura com todos e narra a vida surreal de seu cunhado Rodolpho -“um “príncipe” -; a chegada e a rápida saída de brancosos paulistas; a mulher vendendo óleo de coco, o Raimundo Carpinteiro; a rezadeira e os pais de santo. Ele é ainda, segundo narra, marido apaixonado. Vejam: “Fecho a porta devagar e deixo os anjos a velarem o sono justo da mais linda e mais extraordinária mulher que conheço”. Estar arrebatado de amor em plena maturidade é uma graça e ele extravasa essa alegria em várias partes de suas estórias. Myriam é citada muitas vezes, sempre com amor e carinho explícitos. É paizão e não deixa de citar os filhos, Renata, Adriana, Andréia e Beto, suas outras paixões e acompanhantes de existência/viagens. Multifacetado, não fala só de família e Canoa Quebrada, onde descansa, à beira-mar, o seu corpo nos fins de semana prolongados, admirando o mar e as falésias. Conta conversa com engraxate sobre proeza sexual, viagens ao Quixadá, ao Piauí e se aventura pela Europa, começando pela mãe Lisboa, reza em Fátima, católico declarado que é, segue ao Porto e se deslumbra com Santiago de Compostela. Vai em frente e chega a Paris, pleonasticamente “com alegria e entusiasmo” e não foge da narração de lugares visitados e pelos quais se enamora. Ele é assim, derramado, uma avis-rara neste mundo de pessimismo, futricas e olho grande. O seu livro é um itinerário de estórias vividas, sem preocupação literária. Em todo o percurso zigzagueado do livro há sempre a marca do Roberto. O jeito de gente boa a não baixar a crista e saber se postar em todas as mesas e rodas, seja no chão escaldante de praia quase nativa, ou em rodas sociais das quais participa com regozijo e constância. No afã de escrever, diletante que é, está no terceiro livro, ontem lançado pelo selo da Academia Fortalezense de Letras. Com sua disposição, certamente, não será o último. Escrever é um ato de coragem e isso Roberto tem. Abra o livro, veja a primeira estória, a do título do livro, e prepare-se, com certeza, para chegar à França, sua última parada. Por enquanto, repito.

João Soares Neto,
presidente da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/01/2010

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