O PADRE HENRI, A VIAGEM A PÉ ENTRE PARIS E ROMA E OS POBRES – Jornal O Estado

“O melhor dos bens é o que não se possui”. Machado de Assis
O padre redentorista Henri Le Bousicard (foto), francês, 94 anos, há seis anos mora em Fortaleza, de favor. Ele ainda tem um aperto de mão forte, anda com os seus pés de caminhante e, vez por outra, fala. A voz cansada com poucas palavras talvez demonstre a carência de sinapses que a idade permite. Seu olhar azul é significativo e nos passa a ideia de que ele gosta do próximo, quem quer que seja.
Ao chegar aqui, juntou papelões e montou um barraco entre os mais pobres da zona oeste. Ali viveu e espalhou o seu jeito forte de ser, liderando movimentos sociais em favor de miseráveis.
Fui ver à casa que ora o abriga lá na Barra do Ceará, onde é assistido por amigos que acreditaram em seu projeto há 22 anos, quando de sua primeira visita ao Ceará, e aqui fundaram, entre outros, o Emaús Vila Velha.
O movimento Emaús pretende ser defensor de pessoas em condições de miséria e risco. Sua renda provém de dádivas de papelões, roupas, móveis e objetos sem mais serventia para os doadores. Com a renda, operam.
O que importa neste espaço é dizer que a história do padre Henri foi contada em prosa no livro “Aos 75 anos Paris – Roma 1500 km a Pé”, editado em português, em 2009. O livro é gostoso de ler por sua inteireza. Alguém resolve ir a Roma, saindo da Praça Notre-Dame, Paris, no dia 15 de junho de 1995. Ao fim e ao cabo de 97 dias, de sol e chuva, perdas de caminho e retomadas, chega a seu destino.
Na entrada do livro, como se fora a sua senha, a chave de abertura ou a soleira da porta, ele diz: “A todos os excluídos da mesa da vida/ A todos os marginalizados pela sociedade/Aos homens da rua, aos deserdados pela sorte/Aos desempregados, aos condenados à morte/Aos sem pão, aos sem casa, aos sem abrigo/A todos aqueles que vivem na angústia do desespero/ Ao meu irmão ‘Dédé La Pipe’ que, um dia,/ no metrô, teve de gritar para um jovem ao lado: Chega para lá seu grande egoísta, pois estás ocupando o lugar de dois”.
Levava duas mudas de roupas e teve a sorte de contar com um voluntário e destemido companheiro, um jovem alemão, com a metade de sua idade, com quem andava, conversava, discutia e até brigava. A ideia dele era entregar ao papa de então livros de Bernard Häring, entre eles, “Livres e Fiéis em Cristo”. Sequer, mesmo tentando, não falou com o papa João Paulo II. A burocracia da Igreja o barrou. Contentou-se em deixar no suntuoso Vaticano uma carta e os livros já referidos. Triste, rezou nas catacumbas romanas como um peregrino da fé, não alguém em busca de fama e refletores. Cumprira o seu desígnio.
No livro, já quase em seu final, ele reflete sobre a sua odisseia: “Gostaria de dizer a todos Redentoristas que sejam céticos em relação à minha marcha. Não perdi meu tempo, percorrendo 1500 km a pé. Tenho impressão, quando me lembro de tantos encontros de reflexão durante a viagem, que foram três meses de autêntica missão. Foi, com certeza, uma ação insólita. Mas, quando participei em Portugal num retiro de Redentoristas, animado por um antigo conselheiro geral dos padres do Espírito Santo, fiquei admirado de ouvir o pregador dizer que a vocação dos religiosos implicava em atos excessivos. Fiquei repleto até o fundo do meu ser. Certamente que atos excessivos em amor”.
Ele abandonou o conforto e a segurança de um convento francês para assumir uma postura de missionário e o fez, não só em seu país de origem – onde, em 1972, na cidade de Charenton, funda a primeira “Comunidade de Emaús- Liberdade –, mas ao viajar ao redor do mundo. Aos 52 anos passa a pregar, a agir e a fazer o bem em países tão distintos como Portugal, Brasil, Haiti, Benin, Irlanda do Norte, Alemanha, Checoslováquia, Polônia, Cabo Verde, Madagascar, Romênia, Iraque, Camarões, Congo e Mali.
Ao escolher Fortaleza para o seu destino final, ele parece interrogar: “E os outros? Tendes pensado nos que mais sofrem? A miséria não é uma fatalidade. Causada pela cobiça dos homens, ela tem de ser solucionada por eles. Apenas temos de nos empenhar na luta contra as suas causas…”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/01/2015.

Sem categoria