Uma vez, ao voltar de uma das minhas visitas à Alemanha, escrevi um artigo (Alemanha de raspão) em que disse que aquele país passava a sensação de estar pronto. Lá não há miséria, a segurança é perfeita, a economia é forte, os parques e as florestas são bem cuidados e o povo tem amor próprio. Hoje, após o segundo gol de Ronaldo, agradeci a Deus pelo fato da Alemanha já ter tudo. Nós precisamos de sonho, esperança e não nada mais parecido com o sonho brasileiro que futebol. Ganhamos com a alegria de meninos favelados que conseguiram, com os pés, a reverência de países ricos que os idolatram.
É o menino pobre do interior pernambucano que se soma ao favelado carioca e este ao moleque gaúcho. São tantos, a maioria já rica e consagrada, pela graça de suas fintas e a pontaria de seus chutes.
A Alemanha não precisava do campeonato. A Alemanha tem o Euro e pode trabalhar amanhã com mais afinco em suas milhares de fábricas robotizadas. O brasil sim precisava desta taça, onde não há concavidade, mas uma bola sendo erguida como se fora – e é – um cetro.
Em meio a tanta crise, a uma campanha eleitoral marcada pela perfídia, a espionagem e o uso exacerbado do marketing, ao descrédito mundial provocado pela ganância de investidores sem pátria e sem hora, o brasil precisava beijar o ouro. Mesmo que de forma fugaz. Um país que, quem sabe, precise da rudeza e do sentimentalismo de um sargentão, que está faltando para colocar ordem em nossa grande casa. Avulta, em meio do Delírio coletivo, a certeza de que basta alguém falar grosso, bater na mesa e saber afagar, quando possível. Chega de parecer primeiro mundo. Não dá pra esconder nossas mazelas com a visita obrigatória de autoridades às escolas de samba. É preciso assumir o que somos, mas cozinhar a nossa dignidade com todo o misticismo inato. Paradoxal? Claro. Este é um país assim, nenhum se compara a ele.
Esta lição do futebol nos remete à capacidade de manter acesa a esperança, mesmo que nos vejam com olhos atravessados, torçam o nariz ao nosso exotismo e não acreditam que a bagunça é a ordem do caos com uma pitada de felicidade.
Queremos tão pouco. É só deixar que as favelas exportem talentos, que os intelectuais não sejam tão pomposos e a alegria para substituir a violência. Há neste país muito a fazer. Nada está pronto, tudo precisa ser cuidado e as pessoas podem se unir para isso. O futebol, na sua singeleza, nos aponta o caminho. Acreditem em sonho. Sonho tem cinco letras, as cinco letras do penta.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/2002.

