O PAPA E A FOICE – Diário do Nordeste

Pouca gente se dá conta do Vaticano ser um Estado. Por ser Estado, possui estrutura bem maior que a Igreja Católica necessitaria. Bergoglio, ao assumir o papado sob o nome de Francisco, viu-se cercado da burocracia imensa, histórias e estórias cabeludas que passaram, quase incólumes, nos dois papados que o antecederam.
Sua ascendência italiana, embora argentino, facilitou o convívio com o “establisment” que manuseia todos os cordões, inclusive a distribuição de cargos nas áreas de gestão administrativa e financeira; no tribunal a julgar desde desvio de dízimos, de fé, aos nebulosos envolvimentos em pedofilia; nas promoções de padres a monsenhores e a bispos, de bispos a arcebispos, de arcebispos a cardeais; e aos cobiçados cargos diplomáticos de núncios apostólicos, embaixadores nos países com os quais o Vaticano mantém relações.
A recente visita ao Equador, à Bolívia e ao Paraguai é parte desse esforço de manter a fé cristã em países que estão, no todo ou parte, com a síndrome bolivariana deflagrada por Hugo Chávez, sob a inspiração stalinista da Cuba dos irmãos Castro. Chávez, nos tempos áureos dos preços do petróleo, foi benfeitor generoso da então asfixiada economia castrista.
Agora, retomadas as relações com o fim do embargo americano, Cuba não terá tanta seiva para exportar a ideologia da “pátria ou morte”. Assim, Francisco aproxima-se desse grande reduto católico que é a América Latina, sob pena de perder mais espaço para os pentecostais, os sincretismos e o bolivarismo. É a política da cruz contra a foice e os “diabinhos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/07/2015.

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