Anos 70. Rio de Janeiro. Esquina da Júlio de Castilhos com a Atlântica. Manhã cedo. Um Dodge Dart para. Desce um homem maduro. De onde estou, posso vê-lo por inteiro. Baixo, calvo, calça escura, blazer bege, camisa sem gravata e sapatos com saltos mais altos que o normal. Sobe à calçada, cumprimenta-me com um menear de cabeça e entra no prédio à esquerda. Era ele. Tinha certeza. Lembrei da primeira vez que fui a Brasília, quando tudo começava e o Plano Piloto mostrava grandes vazios. Embeveci-me com a genialidade do urbanista Lúcio Costa e os traços precisos e futuristas dos prédios concebidos por Oscar Niemeyer. Nesse tempo, tomara as dores de Lúcio Costa em rodas ditas letradas. A maioria achava que Brasília tinha sido planejada por Niemeyer. Não, foi Lúcio Costa, disse eu. Niemeyer projetou – e bem – as edificações.
E Niemeyer, o poeta do traço arquitetônico, era aquele homem maduro que acabara de passar à minha frente. Depois desse dia, sempre o via fazer esse curto percurso. E, outras vezes, almoçando no restaurante Alcazar, vizinho à minha mesa. Mas, havia uma timidez a não me deixar quebrar o gelo e conversar com ele. Iria dizer da minha admiração por tudo o que vi dele aqui e em Israel.
Sábado passado, lá estava eu de novo. Ele entrara no Ed. Ypiranga, um prédio simples, antigo, com varandas arredondadas, de cor ocre, onde trabalha na cobertura. Chovia grosso. Criei coragem e apertei a campainha. Hoje, o prédio está gradeado. O porteiro pergunta o que quero. Respondo: falar com o Dr. Oscar. Ele pede para usar o interfone para o número 1101. Um secretário atende. Digo que desejo apenas cumprimentar o Dr. Oscar pelos cem anos. Ele pede que ligue do meu celular para o número que me dá e fale com D. Vera Lúcia, mulher do Niemeyer. A chuva aumenta. Ela atende, ouve-me, e diz que ele está muito atarefado com a equipe e lamenta que não possa me atender naquela hora. Pergunto-lhe a que horas ele iria sair e ela diz: ele não tem hora para sair. E foi assim que perdi a oportunidade de dizer, antecipadamente: parabéns, Dr. Oscar, pelo dia 15. Ontem, por sinal.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2007.

