Newton Freitas, colecionador apaixonado por artes, editou em 2004 o seu Dicionário de Artes com verbetes em que ele registra, com ética, as autorias. Há pouco liguei para ele para falar de uma mostra de arte aberta nesta quarta-feira, em São Paulo, no Paço das Artes, que leva o esquisito nome de “R$ 748.600,00”, querendo traduzir o valor captado para financiar a exposição. Essa mostra, segundo Silas Martí, jornalista da Folha, “parece uma alegoria do que se propõe a discutir, a relação entre os artistas e o dinheiro”. Fique claro que estou falando de arte plástica e sigo André Malraux, escritor francês, morto em 1976, para quem a arte é “aquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo”. Todos sabem que São Paulo reproduz o que aconteceu um pouco antes na Europa e Estados Unidos. Assim, essa “alegoria” tem sido objeto de exposições, ensaios e livros em todo o mundo. A Editora Zahar publicou o livro “Arte&Dinheiro”, de Katy Siegel e Paul Mattuck, que trata do assunto. A subjetividade da arte e sua idiossincrasia tornam alguns pintores célebres. Outros, não. Alguns conhecem a fama e a fortuna em vida. Muitas vezes é preciso morrer para ser bem vendido. Em dezembro passado, o quadro “Sol sobre Paisagem”, do pintor cearense Antônio Bandeira, falecido em 1967, foi vendido, em São Paulo, por 3,5 milhões de reais. As obras de arte dependem não apenas do verdadeiro talento e estilo dos seus criadores, mas do local e tempo onde são expostas, de agentes e vendedores ou “marchands”. Há muito marketing e vaidade em jogo nas ricas exposições e leilões regados com bebidas e comidas finas. Nem tudo vendido é bom e até há falsificações tidas como “genuínas” obras de arte que vão ocupar paredes de quem não quer perceber a distinção, às vezes sutil, entre o real e o copiado. Mas isso não cabe nesta história. O que vale dizer é que a arte continua viva, discutida, apreciada e até sendo objeto da recente criação, em Paris, da primeira bolsa de valores de artes do mundo. Assim, o mercado transforma a arte em mercadoria ou “commodity”, fazendo desaparecer o sentido idílico e a pura visão estética para a qual foi concebida. Uma pena.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2011.

