Menos de um mês antes de chegar ao Brasil do Papa Bento XVI, o erudito alemão Joseph Ratzinger, precedido de conversações, séquito, aparato e elevadíssimas despesas para construir helipontos, recuperar estradas, estabelecer esquemas de segurança, aposentos especiais e mimosear a Basílica de Aparecida para santificar Frei Galvão como o primeiro santo genuinamente brasileiro, fico pensando por qual razão há tanto santo europeu, especialmente italianos, poucos santos africanos e quase nenhum da América Latina. Dizem que há mais de 10.000 santos na Igreja, ninguém sabe ao certo, mas nenhum é brasileiro, até agora. Talvez no nosso caso, sigam o que está escrito em Romanos 3:23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Ora, há 507 anos que os brasileiros sofrem, são resignados, fazem milagres para sobreviver, vivem sob o tacão de governos parvos ou truculentos que fariam o Império Romano parecer o Paraíso celeste, cultivam e professam a fé católica em percentual de mais de 84% e, só agora, mediante ingerência política, é que se reconhece um único santo.
Frei Galvão certamente merece, mas não é possível que, entre milhões de brasileiros católicos, nestes cinco séculos de Brasil, não se entreveja outras pessoas mortas com as condições exigidas pelos cânones do Vaticano.
Mexendo em meus livros, descubro que na constituição do Sacrosanctum Concililium, 32, diz: “… não se fará acepção (distinção) de pessoas ou de classes sociais, quer nas ações litúrgicas, quer no ornato externo”. Um santo antigo, não brasileiro certamente, São Tiago, dizia: “minha fé em Cristo não deve admitir acepção (distinção) de pessoas. Assim, pois se entrarem em vossa reunião duas pessoas, uma trazendo um anel de ouro, ricamente vestida, e outra pobre, com suas roupas sujas, e derdes mais atenção à rica… não estais fazendo distinções em vosso coração”?
Será que os teólogos e doutores do Vaticano estão atentos para isso?
Será que nós do Novo Mundo e dos países colonizados na adusta África, somos apenas pobres pecadores, embora, por nossa religiosidade transmitida, tenhamos aprendido, desde cedo, a ser pagadores de promessas? Por que, por exemplo, Nelson Mandela não pode ser canonizado, se viveu preso parte de sua vida, praticou o bem por onde pisou, pugnou pela não-violência e conseguiu, do seu jeito harmonioso, acabar, em parte, com a apartação social gritante da África do Sul? É pressuposto ser católico?
A resposta parece estar na palavra Roma. É lá, no pequeno e rico Estado do Vaticano, dentro de palácios, que a Igreja toma suas decisões com uma burocracia pesada e indiferente, fazendo acepção. Não valem o esforço e a fé de um missionário percorrendo a região amazônica em séculos passados. Não valem o enfrentamento e o destemor de dar proteção aos desvalidos no interior do nordeste. É preciso fazer milagre, algo sobrenatural. O milagre, hoje e sempre, pode ser também lutar pelo que se julga direito, não ceder a poderosos e admitir a nossa falibilidade, nossa dimensão humana, comportando erros e arrependimentos, desde que as palavras se qualifiquem por ações.
Igreja é, sobretudo, assembleia, reunião que deve reunir iguais, o povo de Deus. Carece o Brasil, portanto, de ter mais santos no Céu para interceder em nosso favor. Que Frei Galvão seja o primeiro de uma série. Precisamos recuperar os santos perdidos.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/04/2007.

