Escrevo para lembrar que amanhã, 14 de março, é o Dia Nacional da Poesia, criado em homenagem ao poeta Antônio Frederico de Castro Alves, nascido nesse dia, em 1847, e morto aos 24 anos. Era o poeta da abolição ou dos escravos, por sua indignação contra o comércio de pessoas negras que, no Século XIX, enriqueceu muitas famílias aqui no Brasil. Não sei bem o que é poesia. Como dizia o escritor russo, P.G. Antokolski, “a poesia não responde, questiona”. Acredito, portanto, que possa fazer um esforço para tentar (in) defini-la. Tem gente que pensa poesia como receita de bolo. Bastaria juntar capacidade de escrever em uma linguagem diferenciada, saber expressar emoção, ritmo e rimar com cadência, métrica, e ter-se-ia um poeta. Poesia, entretanto, é mais que isso. A tessitura de um poema passa por fios estéticos, usando-se ou não recursos formais de estilo. Poesia passa pela transfiguração da essência das palavras, mas não é só isso. Madame de Stael, escritora francesa do século XVIII, dizia que poesia “é a linguagem natural de todos os cultos”. Essa é uma definição elitista e simplista. Talvez a do poeta americano, do século passado, T.S. Eliot, seja mais abrangente “A poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade”. Assim é que não seriam, necessariamente, poetas, mesmo que em versos metrificados e com metáforas, os que tratam de suas próprias vidas, da morte, do devaneio, do isolamento, os tidos como poetas existenciais. Tampouco seriam poetas, de pronto, os apenas românticos, os que falam de suas emoções; e os que se preocupam com o mundo, tidos como poetas sociais, a evocar questões igualitárias e políticas. Não sei, sério. Deixo, com vocês, dois textos, sem o nome do autor: “Aceitar o barco do sonho, pisar o chão da ilusão, sem esquecer a aurora, sem domar a gula, transgredindo, esperançando, devorando, roendo, voando, solo ou não”. Poesia? Segundo texto: “Entre alças, calças pés nus e a água corre, irrigando o chão, marcando o passo, em descompasso, pétreo, vítreo e a réstia vista assombra a luz, seca a água e os passos usurpam.” Seria poesia? Decida você, sem esquecer que as regras, quase sempre, destroem a arte. E poesia é arte. E, como cita Ferreira Gullar, a arte existe porque só a vida não basta.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/03/2009.

