“O desagravo dos ressentimentos do vencido deve preceder o desarmamento dos vitoriosos”. Winston Churchill
Os jornais, sejam os de papel ou os falados nas televisões abertas, as que estão disponíveis para qualquer televidente, como dizem os hispânicos, nos trazem, quase sempre, más notícias. É história antiga: se um cachorro morder uma pessoa, não é fato jornalístico. Agora, se alguém, bípede, humano, resolver morder um cão, a história muda. O fato jornalístico é o que causa impacto, sensação, incomoda a alguns e alegra a outros. É o instantâneo do que acontece a cada dia.
Este tempo está pleno de más notícias. Até os programas que brigam por audiência procuram presos “famosos” para uma conversa longa, os chamados “talkies shows.” E a audiência aumenta, creiam. Os concorrentes criticam, mas se esquecem de que, todos os dias, exibem o que de antinatural ocorre na cidade, no Estado, no Brasil e no mundo.
O papa resolve, no domingo de ressurreição, dar alguns euros para os sem tetos de Roma, e isso é boa notícia. Mas, não esqueçam que o papa Francisco é midiático, sabe como e quando deve se expor. Sempre sorridente e afagando o próximo, seja quem for. Encara luta interna contra alguns cardeais, os mandões do Vaticano. Afirma que seu pontificado será breve. É notícia para católicos e para os que, no outro lado do mundo, recebem imagens e textos do ocidente conflitado.
Angeline Jolie resolve fazer mastectomia dupla e, logo em seguida, admite ter retirado o útero e os ovários. Ela sabe que esta notícia importa para mulheres que estão sujeitas às mesmas doenças. Jolie perdeu a mãe e uma tia. Escancara para o mundo o seu medo – ou seria coragem? – e toma providências radicais. Deixa-se fotografar com os filhos gerados no seu útero pretérito e com os adotados, em diversidade racial que a coloca sempre como uma referência correta. Isso é boa notícia.
Warren Beatty, famoso biliardário americano, resolve ser sócio dos brasileiros que transformaram a Ambev na maior controladora de cervejarias do mundo. Agora, juntos, compram de empresas de condimentos a conservas e assemelhados. Warren, não contente com isso e já ao meio da sua octogenária estação, resolve esmiuçar a vida do excêntrico Howard Hughes, apenas conhecido por biografias e, do grande público, através do filme “O Aviador”.
Hughes era um grande fornecedor do governo americano, sofreu vários processos e morreu de forma iníqua, trancando-se em diferentes hotéis, definhando, deixando a barba crescer como um ermitão. O seu império, não sei como, ainda floresce. Pois bem, aguardem. Poderá sair um novo filme sobre esse homem que inventou um avião de oito motores e não o viabilizou. Namorou mulheres bonitas e famosas de Hollywood e de outros espaços, mas deu no que deu. Não sei se isso é bom ou ruim, mas não deixa de ser notícia.
A Presidente oferece um ministério palaciano ao seu ministro da Aviação Civil. Ele é do PMDB, aliado ao governo, e recusou a prenda do ministério de relações institucionais. Alegou estar com filho recém-nascido e, como tal, espera se dividir entre o planalto e os pampas. O vice-presidente Michel Temer, então, resolve assumir a coordenação política. Renan Calheiros e Eduardo Cunha se entreolham.
Enquanto isso, a Síria sofre escuridão noturna ou blackout por conta de conflito armado que já vai entrar no sexto ano. O autodenominado Estado Islâmico continua a receber jovens voluntários para as suas hostes. Quatro milhões de sírios já se foram para muitos países. Brasil, incluso. Este é um dos muitos conflitos do Oriente Médio. O Irã promete não usar arma nuclear. Na parte oriental da Europa há o puxa-encolhe da mãe Rússia que fustiga e se ressente da falta das antigas repúblicas que se apartaram com o fim da URSS.
Este quadro singelo é o conteúdo disponível nas emissoras de rádios, de jornais, de televisões e nas mídias sociais. Não há como fugir das desavenças humanas, da ambição, dos litígios pela fé e dos interesses de grupos econômicos e de bloco de países, entrincheirados e pressionados pela indústria de armamentos. A vida é.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/04/2015.

