Amanhã é o dia mundial do urbanismo. As cidades são a prova da quase falência de uma só profissão, a arquitetura, como a única a reger o urbanismo. Urbanismo é muito mais que arquitetura, geografia, topografia, ecologia, história, sociologia, engenharia, informática, logística, economia, administração, direito etc. Urbanismo é o somatório de tudo isso. Ou, em outras palavras, é a absorção de cada uma dessas artes, ciências ou profissões, de forma integrada, para a análise sistêmica de uma cidade ou partes dela. Neste quase fim de 2009 há uma certeza: toda média ou grande cidade do mundo vive um caos urbano. No Brasil, é rara a cidade sem problemas de engarrafamentos, alagamentos e acidentes. De uns tempos para cá, a única novidade na face urbana das cidades foi o pardal ou foto-sensor. Ele reina, impávido caça – reais de todos os que, distraídos, esbaforidos pelo estresse ou medo de assaltos, se afoitam a avançar sinais, parar nas faixas de pedestres, fazer retornos indevidos ou dobrar à esquerda/direita. Sua tecnologia é de ponta. Ganham, a empresa que os instala e a cidade que a contrata. Quanto monta as multas de trânsito, não se sabe. O que se diz, especialmente no Rio Grande do Sul, é que os Detrans são os caixas dois preferidos de governantes. Deu até em CPI que, como todas, acabou em nada. Com a municipalização do trânsito, o problema tomou outra dimensão. Rara é a cidade a não adotar esse mecanismo de faturamento instantâneo, espécie de caixa-rápido. Por outro lado, não há projetos para radicalizar o uso dos transportes públicos e criar vias exclusivas para bicicletas e motocicletas. Estas últimas são o terror do trânsito. Um dia desses, sinal fechado, vejo uma moto subir, pela esquerda, o canteiro central da via para passar na frente do meu carro. Pelo retrovisor, olho outra moto vindo pelo lado direito. As duas se chocam. Lembrem que o sinal estava vermelho. Discussões fortes após a batida e eu esperando. Depois, quase roucos, lá se vão os dois motoqueiros arrastando suas motos para o passeio. Olho para frente e o sinal verde fechou de novo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/11/2009.

