O SENHOR PRESIDENTE – Jornal O Estado

“Toda a história é história contemporânea”. Benedetto Croce, filósofo italiano.
Cinco de agosto de 1963. Em Washington, Distrito de Columbia, capital dos Estados Unidos, era manhã clara. Um grupo de jovens líderes brasileiros achegava-se a um dos portões laterais da grande casa de número 1.200, da Avenida Pensilvânia. Éramos universitários – os moços de paletó e gravata, as meninas bem prontas – menos de 60. Todos na faixa dos vinte anos, de diversas partes do Brasil, especialmente do Sul e do Sudeste.
Havíamos sido escolhidos em concurso nacional, presencial, por vários examinadores, com múltiplos enfoques, incluindo conhecimentos gerais e quociente de geopolítica. Entre eles, um psicólogo de origem alemã que a tudo assistia com caderno e lápis a mão.
A viagem internacional foi feita em avião da Pan American Airways. Aterrissamos em Nova Iorque, no grande aeroporto que, à época, era o Idlewild e viria a ser JFK. As portas automáticas se abriram e eu via – ou imaginava ver – mais carros que Fortaleza possuía.
De ônibus e fomos levados para a Columbia University, na direção oeste, à altura da rua 115, na Morningside Heights, perto da Igreja de São João, o Divino. A Columbia é privada, data do século 18, e é uma das maiores universidades dos Estados Unidos. Faz parte da Ivy League, fechadíssimo grupo de oito universidades de alto nível dos EEUU. As outras, são: Harvard, Princeton, Yale, Pensilvânia, Cornell, Dartmouth e Brown.
A partir da Columbia começou a minha alfabetização – ainda não concluída – sobre a cidade de Nova Iorque, usando o seu metrô ou os ônibus especiais que nos levavam para ver museus, bibliotecas, teatros e parques.
De Nova Iorque para Massachussets, especialmente a Harvard University, que muitos pensam ficar em Boston, mas, na realidade, se localiza em Cambridge. A Harvard é igualmente privada, famosa, celeiro de presidentes americanos e remonta ao século 17. Os edifícios que a compõem não são monumentais, têm poucos pavimentos, revestidos de tijolos. O paisagismo que a envolve, com frondosas árvores e amplos gramados, é intercalado com jardins com flores multicores.
Pois foi lá em um dos seus alojamentos, onde depositei a minha escassa bagagem e, em seguida, participei, em tempo integral, do “Life and Institutions in the United States”, com diferentes docentes e conferencistas, sob a coordenação do Professor Henry Kissinger.
Mas, o que tratei no início deste artigo foi a chegada em Washington e a visita marcada com o presidente John Fitzgerald Kennedy. Ele estava no meio do seu segundo ano de mandato. Ninguém intuía que o seu filho Patrick, prestes a nascer, morreria logo em 09 de agosto, com apenas dois dias, e que JFK seria assassinado em 22 de novembro, em Dallas, no Texas. Os fatos todos imaginam saber, mas há ainda nacos de desconfiança para renitentes historiadores.
Você já deve ter visto onde os presidentes americanos recebem seus colegas de outros países. Pois foi lá naqueles jardins, em meio a colunas que fomos acolhidos e esperamos a chegada do filho mais importante de Joseph Kennedy, descendente de irlandeses, grande empresário, ex-embaixador americano no Reino Unido e financiador do Partido Democrata.
Na expectativa de sua chegada, surgiu a premência de urinar. Esgueirei-me e entrei na primeira porta disponível. Deveria, em algum lugar, haver um sanitário, logo encontrado. Aliviado, voltava aos jardins, quando vi, a pouca distância, John Kennedy que cumprimentava, de longe, um dos grupos em excursões diárias por áreas limitadas da Casa Branca.
Disse para alguns colegas já ter divisado o Presidente. Descrevi a sua roupa: terno azul-marinho, camisa branca e estreita gravata vermelha. Em minutos assoma John Kennedy, tal como o descrevera. Havia feito 46 anos em 29 de maio. Sorridente, entre outros papos, perguntou: “quantos futuros candidatos a presidente do Brasil há entre vocês”? Nenhum, respondo agora.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/02/2016.

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