Tem muita gente procurando o sentido das coisas. Compra livros, vai a analistas, escolhe um guru, reza, mas não o encontra. Claro, não há encontro com o sentido das coisas.
Para se saber o sentido das coisas é preciso criá-lo. Você é que deve fazer com que as coisas tenham sentido. Não adianta a muleta dos livrinhos de autoajuda, dos analistas cheios de problemas pessoais a resolver, dos gurus ascéticos e carentes de realidade e da oração sem fé, como uma troca.
Não basta também a boa vontade dos parentes, amados ou dos amigos, você tem de descobrir a sua própria história, viver as suas próprias dores e despedaçar-se, pois, segundo Cecília Meireles “quanto mais me despedaço mais fico inteira e serena”.
Para as coisas terem sentido é preciso que a pessoa se despedace, com o condão de ficar inteira, como resgate.
Todos nós temos ouvido frases como: “a minha vida não faz sentido”, “isto não faz sentido”. E o que faz sentido para você? A vida dos outros? Calcem as suas botas e descubra o seu mundo. Não é preciso ir a Santiago de Compostela para encontrar o Ser Supremo, nem ir a um “ashana” na Índia para ficar zen.
Você é que tem o caminho, o cajado e a escolha. Faça-o sem medo, no dia a dia, em meio à pontaria dos que lhe atiram flechas, como se você fosse o alvo. Você não é alvo, você é algo, torne-se especial, sendo simples. Não precisa usar as sandálias do pescador para se tornar puro, a pureza não vem do vestuário, nem dos olhos dos outros, ela assoma do seu coração e quem o redime é a sua consciência, não o julgamento dos outros.
Cuide de você e já terá um grande trabalho. Que ser complexo é ser você. Ser você é ser único e não uma cópia de alguém ou do modelo que imaginam lhe cair bem. “É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la”, já dizia Fernando Pessoa. Torne-se romântico sem ser piegas.
Não pense, por exemplo, que “As time goes by”, “She” ou “New York, New York” foram compostas para você, mas se permita sentí-las. Da mesma forma, não se sinta embriagado com Marisa Monte, Fernando Brandt, Milton Nascimento e, vá lá, Roberto Carlos, mas os considere como reserva técnica de seus devaneios. Não deixe que os outros façam as suas coisas e escolham seu destino, calce os seus próprios sapatos, caminhe a dura estrada e se, não encontrar estrada, faça uma. Seja um Rondon, sem medo de florestas e de feras. Quem tem medo fica acuado e não vive, perde-se no labirinto e não encontra a saída e ela pode estar bem aí à sua frente.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/1999.

