O SETE DE SETEMBRO MUDOU? – Jornal O Estado

Amanhã será o dia da Independência do Brasil. Cairá em um sábado, para tristeza de alguns. Pouca farra, menos acidentes. Os hospitais respiram. Há uma expectativa de manifestações e o governo procura reforçar o contingente de policiais em cidades e, especialmente em Brasília. Ministros são convocados a comparecer.
Dilma Rousseff chega de Stalingrado, que voltou a ser São Petersburgo, cansada com o fuso horário de sete horas de diferença, apoquentada com a economia que não decola. Quiçá tenha conversado, em pleno voo, com Guido Mantega. Ele, italiano naturalizado brasileiro, tenta ser tão longevo na Fazenda quanto o Delfim Netto. Este, brasileiro, também descendente de itálicos.
O país ferve em face de um calendário eleitoral que não dá trégua. Há eleições de dois em dois anos e o custo financeiro/social disso tudo não é considerado, apenas computado. Há partidos em profusão. Outros procuram registros até outubro, o prazo limite. O país parece cansado da política e dos políticos. Voto aberto ou fechado para cassar ou livrar? O povo ignora.
Você sabe o que é Independência? Recorro ao dicionário do Aurélio: “Estado ou condição de quem ou do que é independente, de quem ou do que tem liberdade ou autonomia”. Será que o Brasil tem, neste 2013, liberdade e autonomia? Pense e responda. Vivemos, neste século 21, uma situação peculiar no mundo com a formação de blocos econômicos para resguardo de interesses. Sob o chapéu ou não da ONU- Organização das Nações Unidas, que tem bela sede em Nova Iorque, pertinho do rio Hudson, cria-se o G-8, que congrega os oito países ditos os mais poderosos do mundo; o G-20, grupo similar com os tais oito e mais doze que procuram crescer para poder conviver e dialogar em um mundo desconfiado, retalhado de interesses, com a crescente discriminação internacional aos muçulmanos que são peculiares, pois diferentes em essência e modos. O Nafta, que reúne os Estados Unidos, o México e o Canadá. Os Brics, Brasil, Rússia, Índia, China e a África do Sul, os que seriam a bola da vez para o clube dos ricos e muito mais.
Não tenho conclusões, apenas observo e vejo que nós, os latinos, os que ficamos aqui no hemisfério sul, também procuramos criar organismos como o Mercosul, a Aladi, a Unasul, a Alca e outros que não cabe citar. Neste lado do mundo, segundo os jornalistas, cientistas políticos e sociólogos de plantão, há um socialismo tardio, mais voluntarioso que ideológico, mais apegado ao poder que às bênçãos ou ideários bolivarianos.
Vivemos tempos desconfiados, pessoas e países são escutados, criam-se mecanismos de saber o que o outro fala. Não me refiro a comadres de vilas, mas de chefes de nações complexas e maduras que primam pela utopia da segurança nacional e da soberania. Divago, não por falta de astrolábio, prumo ou GPS, mas por ver neste planeta imenso o fato de uma só pessoa, Edward Snowden, causar tanto alvoroço ao revelar, em conta-gotas, fatos que captara neste mundo ainda insondável da espionagem eletrônica de Estado, hackers e empresas transnacionais.
Os filmes de 007, com James Bond, farão apenas parte da filmografia e, em breve, serão peças das cinematecas. O mundo real está turvo. A Síria, com Bashar Al-Assad, é o espinho da vez ao ocidente. Aqui nos preocupamos com o “Mais médicos”, explosões de caixas eletrônicos, posições excêntricas do parlamento nacional, futebol e estádios, vaidades manifestas nas linguagens jurídicas em mantos e o mundo financeiro que só vale para os iniciados, os “insiders”, os que manipulam tudo, em ambos os hemisférios. E para não dizer que esqueci: as manifestações.
Volto ao Sete de setembro e não deixo de lembrar que o nosso D. Pedro I, o homem do “Independência ou Morte”, às margens do riacho Ypiranga, em São Paulo, empós volveu fagueiro a Portugal, sua pátria mãe e lá, embora fortuitamente, chegou a ser coroado rei, como D. Pedro IV, e a sua estátua reina na Praça do Rossio, na capital lisboeta. Como decifrar o tão óbvio?
Foi-se o tempo em que marchava na Avenida Duque de Caxias, como estudante e, depois, aluno do CPOR-Centro de Preparações de Oficiais da Reserva do Exército, quando o suor do corpo no sol a pino nos fazia crer em brasilidade. Como amávamos o Brasil!

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/09/2013

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