O SOL DE LÚCIA MARTINS

“Não há nada de novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: Eis aqui uma coisa nova, porque ela já existiu há séculos que se passaram antes de nós”. Está lá no Eclesiastes. E foi desse livro bíblico que Lúcia Martins tirou o nome do seu romance “Nada de Novo sob o Sol”, publicado em 1967. No princípio, era Sandra Lacerda, mas logo se descobriu o seu nome verdadeiro e com ele, em 1977, ganhou o prêmio José de Alencar, pela UFC. Mas, já era vencedora. Em 1945, com “Janelas Entreabertas”, foi menção honrosa no prêmio Aequitas. Em 1952, o prêmio Rádio Roquete Pinto, no Rio, com “Histórias Infantis Radiofonizadas”. Em 1953, com “Destinos Cruzados”, o prêmio da Prefeitura de Fortaleza.
Neste mês de maio o Ceará perdeu o sol de Lúcia Martins. Não era cearense, mas se cearensizou ao casar com Fran Martins. Lúcia teve olhos atentos para o que acontecia nesta terra e manifestava esse conhecimento em crônicas, contos e romances. Olhar profundo, semblante sereno, o jeito de quem sabe do mundo e a certeza de “não há nada de novo sob o sol”, não se deixou ofuscar pelo brilho do marido. Tinha sol próprio. Eram talentos diferentes e paralelos.
Em 1952, aos 26 anos, quando da morte de Joaquim Alves, integrante do grupo Clã, escreveu: “Agora, o que se faz preciso é cultuar-lhe a memória, dar-lhe o lugar entre os grandes trabalhadores intelectuais do nordeste, não deixá-lo esquecido, como se fez com Oliveira Paiva, que somente sessenta anos depois de sua morte teve os seus méritos justamente louvados.”
Em 1953, na revista 14 do Clã, estava Lúcia a entrelaçar palavras ao criar o conto “Questão de Consciência”, depois reproduzido no seu livro “Histórias para passar o tempo”, de 2000. Vejam como Lúcia escreve sobre a morte de uma personagem: “Meia hora depois estava na casa da amiga morta. Chegou apressada, uma cara que sempre fazia para ocasiões dessa natureza: missa de sétimo dia e enterro pedem uma fisionomia diferente. Um ar mais sério, mais sóbrio. E ela sabia manter aquela linha que considerava fazer parte da personalidade da mulher”.
Estive no velório e na missa de sétimo dia de Lúcia e tudo me fazia lembrar o que ela descreveu em 1953, como se madura fosse e era para antever fatos. A serenidade de Lúcia Martins, pós-morte, me fez lembrar de Platão, na Apologia, quando dizia que “ninguém sabe se a morte, que os homens, em seu medo, supõem ser o maior mal, não é talvez o maior bem”.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/05/2005.

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