O SONHO – Diário do Nordeste

Em 21 de março de 1965, há exatos 45 anos, Martin Luther King Jr abriu o longo e duro caminho para a liberdade racial na América, então preconceituosa e indiferente. E o que fez Luther King nesse dia? Marchou com mais de 3.000 pessoas de Selma a Montgomery, no estado do Alabama. Bradava com a autoridade de detentor do Prêmio Nobel da Paz, de 1964. Era o mentor maior da luta pelos direitos civis e defendia a não violência de Mahatma Gandhi, de quem fora amigo. Seu breve discurso “I have a dream”(Eu tenho um sonho), proferido em Washingto n, em 28 de agosto de 1963, foi o marco da consolidação da Lei dos Direitos Civis, assinada por Lyndon Johnson, a ferro e fogo, e o estopim da efetivação, em 65, da Lei dos Direitos Eleitorais. Assim, os negros estabeleciam pegadas fortes na busca da igualdade de direitos. Ano passado, em meio ao inverno, estive em Atlanta, sua terra natal, e pude percorrer alguns de seus caminhos. Fui ao Memorial onde estão as lembranças materiais e imateriais de sua trajetória política, da luta desmedida pelo direito de fazer-se respeitar pela maioria branca. Vi seu túmulo, em granito preto, e senti que as balas que o assassinaram em1968, em Memphis, talvez tenham ajudado a eleição de um negro à presidência dos Estados Unidos, em 2008. Ele dizia, no seu discurso, que: “Eu tenho um sonho de que um dia, esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado dos seus princípios”. Relembro, com clareza, o início da marcha dos negros em agosto de 1963. Eu, jovem quase imberbe, estava por lá e vi o alvoroço de um país em dilema: abrir-se ou se autodestruir. Nesse tempo, três grandes líderes foram assassinados em série: John Kennedy, em 21 de novembro de1963; Luther King, em 04 abril; e Bob Kennedy, em 05 de junho, ambos em 1968. Paradoxalmente, esses crimes foram sendo introjetados, pouco a pouco, no seio da grande imprensa que parecia tender, inicialmente, pelo “apartheid”. A perda da Guerra do Vietnã talvez tenha contribuído, a seguir, para a formação de um caldeirão de americanos não brancos a agir politicamente por mudanças que só devem ser, a meu ver, registradas pela História com a eleição de Barack Obama.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/03/2010.

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