O TEMPO – DE 1958 A 2014, NA MINHA VERSÃO – Jornal O Estado

Comecei a me entender como gente no final dos anos 50. Em 1958, nos “gélidos campos da Suécia”, pleno verão europeu, a seleção de futebol do país Brasil ganhou a Copa. Fui até à Praça do Ferreira, então centro da cidade. Alegria geral. Nos dias seguintes, estudo e trabalho normais. Elvis Presley passou batido na minha vida. Claro que entrei os anos 60 sabendo da juventude transviada e sequer, cogitei comprar um disco de Roberto Carlos, Erasmo e Chico Buarque, este último, excelente letrista e péssimo cantor. Vi filmes de Marlon Brando, James Dean, e teatro com Cacilda Becker e Bibi Ferreira. Boris Pasternak, russo, ganha o Nobel de Literatura e Parsifal Barroso é eleito governador do Ceará. Há seca no Nordeste.
Estamos em 62, a seleção, novamente, representa o Brasil e volta bicampeã no inverno chileno, não detectado pelos locutores esportivos, ao pé dos Andes. Todos vibram e Maluf, ainda hoje na política, dá um carro a cada herói, com dinheiro público. A televisão brasileira é ainda comandada pelos Diários Associados. Inebrio-me com Fernando Pessoa, admiro a “nouvelle vague” e o casamento aberto dos existencialistas Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir.
Começo a escrever no Correio do Ceará a coluna “Informes Acadêmicos”. Após plebiscito, surge o parlamentarismo. Tancredo Neves, como primeiro ministro, para suavizar João Goulart, o presidente que os militares não aceitavam. A política universitária elege-me deputado do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, da Faculdade de Direito da UFC, ao aderir ao sistema vigente. O Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes – UNE, viaja pelo Brasil e eu participo do Congresso Nacional dos Estudantes, em Petrópolis, Hotel Quitandinha. Recepciono, acidentalmente, Augusto Frederico Schmidt, que chegou em um Aero-Willys preto, para dar palestra. O Congresso vira bagunça com pó de mico em todos os cantos e até tiros acontecem. John Steinbeck, americano, recebe o Nobel de Literatura. Virgílio Távora é eleito governador. “A União pelo Ceará” conseguiu unir adversários políticos.
Pulo para 1970, regime militar. O cônsul japonês Nobio Otkindo é sequestrado e trocado por cinco presos políticos. Tempos de chumbo. No final de junho, toda a então Confederação Brasileira de Desportos, o sonolento técnico Vicente Feola e os atletas chegam a Brasília, vindos do México, comandados por Pelé, Garrincha, filho de alagoanos, e os demais. Juntos com o general Ernesto Garrastazu Médici, erguem a Taça de Campeão. O Brasil ia para o 3º título de futebol e os que não estivessem satisfeitos optavam em deixar o país. Já formado, com firma recém-montada, sofro com a perda, em acidente de carro, do que viria a ser – e não foi – o meu único filho homem. Caixão de anjo sob o braço vou deixá-lo no São João Batista, enquanto o país entrava no que viria a ser o milagre brasileiro. Houve outro sequestro de diplomata e Raul Seixas, acolitado por Paulo Coelho- que ainda não havia descoberto a sua verve literária-, Gilberto Gil, Caetano e Gal Costa embalavam, com metáforas, o sonho dos amantes da “cannabis sativa”. O escritor Alexander Soljenítsin, dissidente russo, ganha o prêmio Nobel de Literatura e diz algo como: “tudo o que acontece é porque os homens não acreditam em Deus”.
Aí chega 1994. Já tenho quatro filhas, os negócios ganham corpo e continuo a ser um teimoso “outsider”. Misturo trabalho com a escrita semanal em jornal, enquanto o mineiro Itamar Franco, em face do impedimento de Fernando Collor, governa o Brasil e prepara o Plano Real, com a ajuda de Ciro Gomes. Após 24 anos, surge a quarta estrela na camisa da seleção de futebol, com o excelente desempenho de Romário, hoje deputado federal, e em disputa para a senatória do Rio de Janeiro. No Ceará, Tasso Jereissati é eleito governador. O ainda hoje desconhecido, pelo menos para mim, o escritor japonês Kenzaburo Oe, ganha o prêmio Nobel de Literatura.
Chego a 2002. Coreia do Sul e Japão se unem, no continente asiático, para patrocinar a Copa do Mundo que foi vencida pelo Brasil com destaque para Ronaldo, que já havia sido Ronaldinho, passou a Fenômeno e hoje mora bem em Londres como Ronaldo Nazário. Era a quinta estrela, a taça e a tropa chegam a Brasília e ali foi levantada por Cafu, o capitão do time, ao lado de Fernando Henrique Cardoso, o presidente da República. Em seguida, veio a eleição e o líder sindicalista e candidato do Partido dos Trabalhadores Luiz Inácio Lula da Silva é eleito presidente. Já tenho três netas e me reinvento como mercador, para potencializar, desde 1999, um centro comercial no então esvaziado bairro do Benfica. Já escrevi três livros, pertenço à Academia Fortalezense de Letras e continuo na faina da escrita semanal para o Diário do Nordeste. Lúcio Alcântara é eleito governador do Ceará e o escritor Imre Kertz, húngaro, recebe a láurea do Nobel de Literatura.
Ia escrever sobre 2014, mas este relato se torna longo, uma cefaleia me incomoda e o jornal cobra a matéria. Ponto Final.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/07/2014.

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