“Quanto mais envelheço, tanto mais desconfio da crença comum de que a idade traz sabedoria” H.L. Mencken
Para todos, o dia tem 24 horas. Temos um relógio incrustado em algum lugar de nossa mente que sempre confirma o passar do tempo. Cada segundo é tempo diminuído da nossa conta-corrente de vida. Não há como pedir tempo, como se estivéssemos jogando uma partida de vôlei, futebol de salão ou basquete. O jogo não tem sequer intervalos. As noites insones, e as de sono inquieto ou profundo, também são lançadas no passivo da vida. Assim, a cada dia, vamos saindo do berço, dos cueiros, para o engatinhar, cair, levantar, andar e daí sair para a escola, a faculdade, o trabalho, a vida a dois, a solidão desejada ou auto-imposta pelas circunstâncias.
Hoje, 1º de outubro, se você não sabe, é o dia consagrado ao idoso, em face do Estatuto nacional que regula e presume proteger as suas relações com a sociedade. Mas, afinal, o que é ser idoso? Será a diminuição das faculdades vitais ou a expulsão, por decurso de prazo, do mercado de trabalho? Será o limiar do desengano? O ponto do não retorno? A ausência de objetivos? A perda do viço ainda existente em árvores centenárias? A não obrigação de fazer? Ou o desamparo sentido ao olhar o tempo perdido? Não o poético andamento proustiano, mas a fala não dita, a atitude não tomada, a posição não assumida, o perdão não obtido, a incapacidade de se auto aceitar em frente ao espelho real, esse aliado eterno do tempo.Ele conhece a nossa face, sabe de nossas rugas, vê os olhos mudando de dioptrias, repara na curvatura das sobrancelhas, não esconde os vincos do pescoço e o cair dos cabelos que se tornam cinza e em brancos se findam. Mas, o que é um espelho? Socorro-me de Clarice Lispector: “É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio… esse alguém percebe o mistério da coisa”.
Por outro lado, estar idoso é ter a dimensão da finitude, de traduzir a vida não como tragédia, comédia ou farsa, mas como uma seqüência de atos que praticamos por nossa própria vontade, herança genética ou dos costumes, bons ou maus, adquiridos no compasso ou sincopado das relações humanas.
Estar maduro, idoso, não é mérito, embora ninguém deseje morrer jovem. Estar idoso pode ser prêmio ou maldição. Depende, sempre, da terra que aramos, das sementes plantadas, da rega que fizemos e do cuidado com as ervas daninhas. Hoje, neste dia dedicado aos maiores de sessenta anos, é preciso que todos nós, idosos e os que os cercam, bem como os que, com ou sem razão, os abandonaram, coloquem a pesar os pratos das contas-correntes que forjam a balança da vida e tirem suas conclusões. Sem esquecer nunca que você é o que sente ou o que deixa ser plantado em sua mente que, quase sempre, mente.
Dedicado a Francisco Lima Freitas, ativo e capaz, na pista oitentona.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/10/2010.

