Não importam idade, o sexo, cor, capitais e estado civil, todos vão recebendo marcas da vida ao longo dos dias. Todos vão somando alegnas, enganos, tristezas, acertos, dores, solidão, encontros e coisas que tais. De repente, as marcas vão povoando o espírito, quando não se transmudam em somatizações tão reais que podem ser auscultadas, sentidas e vistas. Essas marcas são mais fortes na medida em que não sabemos o nosso limite, a hora de mudar de rumo, de não entender o outro como projeção dos nossos desejos e aceitar que as promessas e juras são frutos de um contexto que se transforma no tempo com a lucidez ou a mudança de personagens.
As marcas ficam tênues quando entendemos e admitimos que nós temos todas as respostas e que ninguém é responsável pelos nossos desatinos e a indecisão que machuca, desconforta e imobiliza. Ninguém tem respostas para você ou sabe o tempero que nutre as esperanças e as alegorias que embalam os seus sonhos. Não há como procurar muletas e admitir que alguém possa resolver os seus problemas. Mergulhe na água da sabedoria, que é a sua praia pessoal, e saia ungido da certeza, da confiança em si mesmo.
Na medida em que você confia em si, os outros deixam de ser acessórios ou adornos e passam a ser companheiros e o compartilhamento é o somatório do esforço comum e não de frustrações e quimeras. A confiança em si é um pressuposto básico para a independência e sem independência não se pode ser livre e quem não é livre não sabe amar. O amor-submissão e o amor-dependência são relações ultrapassadas e neuróticas que reduzem os seus participes a meros marionetes do destino. A eclosão da independência e da liberdade se extravasam no amor próprio, na aceitação de si mesmo sem justificativas ou sentimento de culpa. A sua singularidade é um aviso, um balizamento para respeitar a identidade alheia e os acontecimentos devem abrir a sua mente em relação ao próximo que nunca será tão próximo que possa fundir¬ -se ou confundir-se com você. Como bem disse Ana Maria Ozório de Almeida: “Precisamos aprender a não carregarmos pesos demais, não escondermos de nós mesmos dores não saradas, não desperdiçarmos energia criativa, a energia do prazer, em remendos mal feitos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/02/2008.

