Saio do hospital onde fui ver Bianca nascer. É dia claro, os ventos são fortes nesta manhã venturosa e a poeira levantada me faz fechar os olhos, entrar numa viagem no tempo. Tempo que se confunde e infunde tantas vidas. Eis a narrativa da viagem: era o primeiro filho… Não lhe deram nem o sobrenome da mãe, tampouco o do pai. Herdara um dos dois sobrenomes do avô paterno, exatamente o que o dito-cujo avô não incluíra na certidão de batismo do seu pai. Assim, sem pedir, viera ao mundo desconectado dos nomes do pai e da mãe que o conceberam e amaram. E o avô voou cedo para outras paragens, lá ficou e finou. Não herdou fama, nem desfama. Era apenas um neto usando o nome do avô.
E descobriu depois, quando vieram os irmãos, que também eles não tinham nada do seu nome. Era neto, filho e irmão desconectado de sobrenome. Parece que seria ele, só, sempre.
Foi crescendo em meio a essa confusão e um dia amou e pretendeu casar. Casar nos dois, no religioso e no civil com comunhão total de bem-querer e de bens. Precisava do batistério, prova de que era cristão, sua cabeça havia sido banhada na água-benta, ungido nos santos óleos e provara o sal da salvação. Juntou o batistério à certidão de nascimento. Não conferiam. Um ano as separava. Um ano não vivido. No limbo. Era mais velho para a lei dos homens, sem ser, e só fora recebido na igreja no ano seguinte. Nem era ainda cristão, mas já era pagão, sem ter corpo ou alma.
Explicou-se tudo, muitas vezes e devagar. Entenderam quando um parente bispo, apaziguou os ânimos, disse ser um erro do cartório e o casamento foi acertado. A noiva, por seu turno, resolvera retirar, ao casar, o sobrenome duplo do pai. Assim, os filhos deles, o novo casal, teriam o sobrenome dele, sem nada a ver com o de seus irmãos e pais. E o dela, apenas com o sobrenome da mãe. Era uma genealogia nova e diferente. E gente, nascida do e por amor, foi brotando, surgindo um novo tronco. As velhas raízes que sustentavam a árvore haviam sido podadas e só restara aquele novo a crescer e esgalhar.
Deus – ou o destino-, por pirraça, por não entender a confusão ou em represália, quem sabe, ao podar as raízes paternas, determinou com seus poderes supremos e mágicos que só vingaria mulher naquele novo tronco que formaria outras famílias. Vieram quatro filhas, frutos da nova árvore-base. Cresceram, apaixonaram-se e duas delas, com os seus eleitos maridos, geraram novas quatro filhas, incluindo a que chegou agora, nesta última quarta-feira, 30 de julho: Bianca, leonina, nascida sob os ares do sol, uma melodia, canto novo, plena de graça, verdadeira prenda para seus pais, bonita, sadia, abençoada por Deus. Nova vida, novo ciclo, quem sabe.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/08/2003.

