Todos nós estamos atônitos. O século XXI continua a aprontar. Depois dos atentados aos Estados Unidos em 11 de setembro do ano passado, a eterna briga entre israelenses e palestinos parece coisa da Idade Média. Enquanto isso os Estados Unidos ameaçam invadir o Iraque com armas nucleares e segundo especialistas em fome a cada 04 segundos uma pessoa morre por absoluta falta de comida no mundo. Os índices de violência, sequestro, estupro, pedofilia e crimes contra a vida aumentam de forma assustadora e os economistas descobriram tardiamente, o que todos desconfiavam, não sabem fazer previsões e continuam falando. Há recessão, desemprego, inadimplência, denúncias de corrupção, falta dinheiro para as empresas girarem seus negócios, o dólar dispara, a credibilidade do Brasil fica comparada à da Nigéria, os funcionários públicos reclamam por aumentos, o governo consolida impostos que se diziam temporários, as fiscalizações exorbitam, os advogados aumentam suas clientelas e a Justiça fica abarrotada de ações.
Por outro lado, cá em entre nós, haverá eleições em outubro e tudo é prometido, além de tudo ser permitido a uma imprensa dita investigativa, a maioria a serviço de interesses, mas que falseia a verdade, julga sem provas e condena, como se tribunal fosse, os que não são de seu agrado. Os marqueteiros, senhores da ilusão e criadores de mitos, exultam pela capacidade de mistificar, de propor o que sabem não ser possível realizar. O que vale é iludir, confundir, difundir e denegrir o outro. É como se fosse um grande festival de ilusionismo misturado com centrais de fofocas e fofoqueiros espalhados por todo o país.
A partir desta semana serão abertas as caixas de pandora com os programas eleitorais gratuitos nas emissoras de rádio e televisão. Todos terão soluções, serão simpáticos, mostrarão suas famílias, brincarão com crianças, abraçarão velhos, dirão que são melhores que os adversários e justificarão alianças.
Vejam com os seus próprios olhos e escutem com as suas ouças. Julguem pelas histórias de vida de cada um, esqueçam os gestos teatrais, os cenários, as falas melífluas de locutores e os ares de bonzinhos. Você não perde tempo em ouvir e ver, desde que descubra, por seu próprio caminho, o que é cidadania, a certeza de que está no gozo de seus direitos civis e políticos e a responsabilidade ou dever de exercê-los.
Tenha a capacidade de se indignar ou apaixonar, dar respostas aos criadores de vendavais, aos que estão aí há muito tempo e só falam em futuro, como se eles não estivessem comprometidos até agora com o nosso passado e não vivessem neste presente tão árduo e carente de homens públicos verdadeiros.
Sua arma contra o vendaval é o voto. É a sua flecha da esperança. E você poderá usá-la de forma silenciosa, sem medo, sem alardes, com os olhos no futuro que deseja e espera, sem esquecer o que prometeram e não fizeram no passado e presente, embora rindo, apertando mãos e dourando pílulas que ainda amargam em nossas entranhas.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/02/2002.

