Quando fizemos vestibular para direito, o Latim era obrigatório. Exigia-se ainda uma língua estrangeira e bom conhecimento de Português. Havia provas escritas e orais. Não era fácil passar. Só existia uma faculdade, a da Universidade Federal do Ceará. Afinal, passamos. Éramos uma mistura de quase adolescentes com pessoas maduras. Uns, saídos direto do curso secundário. Outros, já casados e trabalhando, reescrevendo suas histórias ou procurando novos caminhos. Todos, uns e outros, subíamos os degraus dos sonhos que nos levavam ao prédio novo da velha Faculdade de Direito. Uns para o curso diurno, outros para as aulas noturnas. Em todos, esperança e vontade de aprender. Cada um vinha de diferentes caminhos na busca de uma identidade pessoal, de ser alguém. E a sala climatizada parecia nos acolher com certa frieza. Ou seria o “frisson” de estarmos construindo a tarefa de ser gente? O fato é que fomos os últimos daquela faculdade a usar paletós. Foi só um semestre. A crise na cadeira de Introdução à Ciência do Direito, com o Prof. Heribaldo Costa, fez estragos e todos dela saíram com mangas arregaçadas. E assim o fizemos por cinco anos. Além do estudo das matérias, houve política, muita. Jânio renunciou. Jango assumiu e Tancredo foi um breve Primeiro Ministro, até que em plebiscito o povo optou pelo presidencialismo. O Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, inclusive, havia adotado o Parlamentarismo. Depois, Jango caiu. O sonho quase vira pesadelo. E aí a história mudou, mas não de tal forma que impedisse a conclusão de nosso curso, mesclado com greves, denúncias e manifestações. Afinal, a euforia do prof. Antônio Martins Filho, no esplendor de seu reitorado, nos contagiou e acolheu na Concha Acústica da Reitoria do Benfica e de lá saímos de beca para a vida real, esta que nos colocou na lida desde 16 de dezembro de 1965. Todos nós, os que viraram operadores do Direito e os que não, estamos, certamente, dando uma mirada no retrovisor existencial e, incontinentes, continuamos na estrada, certos de que construímos, individual e coletivamente, significados e razões para as nossas vidas.
(este artigo é em homenagem aos colegas de 65, na pessoa de Stênio Carvalho Lima, organizador de nossas reuniões anuais)
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/12/2008.

