Audifax Rios galopa com maestria pelas areias da cidade imaginária ou imaginada de Campanário. Desloca-se na garra de um homem novo pela floresta adentro e o traz de volta com muito ouro e disposição. Tudo para dar sentido, vida, sustança e destino a Zé do Egito ou Zegito.
Detalha com cinzel de artesão, pincel naife, linguajar de escritor maduro, prosa livre de cantador sem viola e a propriedade de etnógrafo, o que vai ocorrendo na vida e nas circunstâncias do Zegito. Como se fora um ferrador de gado, vai marcando, vezes sem conta, o que passa na mente e nos possuídos desse matuto brabo nascido no ano de 191. E o trás pelo cabresto, ao final desenfreado, até os recentes idos de 1964. Há tanta beleza na narrativa de Audifax que é difícil pinçar trechos, sem cometer injustiça, trechos entre os que embevecem, prendem e seduzem o leitor. Apenas dois exemplos:
Um: ´Pois eu lhe conto uns tantos e quantos sucessos das gentes deste lugar perdido nos cafundós do sertão nordestino, que bem poderia ser um qualquer outro pedaço esquecido do planeta. Conversa fiada sobre alguns viventes de um chão abençoado e maldito, empoeirado pelo arrastado das bestas-feras e burras-de padre povoantes destes pagos em noite de espanto.
Dois: ´E durante este tríduo de chuvas nefastas continuaram a desabar raios de pouca monta em comparação com a bola gigantesca e queimaram-se todos os bicos de luz, as válvulas dos rádios rabos-quentes e seus esmeraldos olhos mágicos. Enguiçaram também os aparelhos alto-falantes e o Morse do telégrafo e tudo quanto dependia de magnetos e galenas e outras maravilhas da ciência elétrica e mais descobertas deslumbrantes naqueles tempos de progresso.
Com o jeito de quem conhece a estrada onde pisou e´as gentes deste lugar perdido´, Audifax Rios vai tecendo as teias do tecido social de uma cidade que recebe, em 1946, Zegito em seu retorno de herói-bandido das terras molhadas do Amazonas. Alforje pleno de ouro, um curumim-filho a tiracolo e uma disposição imensa de mostrar a todos quem era e quem seria, chega e finca os seus mourões, o dito José do Egito. De sobrenome tão grande quanto desnecessário, pois a fama daí para frente construída é fruto do Zegito, um agitador que tinha as rédeas da cidade e o beneplácito do céu pela intercessão do Pe.Justiniano, que acumulava as funções de seu amigo, confidente, sócio e beneficiário das suas diatribes.
São tantos os personagens fortes ou sutis, marcantes ou marcados desta mini-epopéia que me indago a razão do destaque aos búfalos que, nada fizeram além de um galope alucinado igreja a dentro e da beberagem tomada pelos irracionais e racionais, todos animais, explodindo a capacidade ´viagrática´ de uma procriação maltusiana que nos faz lembrar o melhor da fantástica criação dos escritores latinos de língua hispânica.
Não é preciso sair citando, um a um, os coadjuvantes dessa cidade-circo mambembe que nos lembra as reinações de Ariano Suassuna e, longe, muito longe, a fase primeira de Jorge Amado, nos confins das terras dos cacaus.
Tão rico é Zegito que o aposto- é aposto mesmo – de Major é supérfluo e descabido. Essa patente teria sido ´comprada a peso de ouro à Guarda Nacional´, entidade extinta pelo presidente Wenceslau Brás desde 1918 e, por tal razão, desconectada da cronologia da narrativa. Tal fato, sem macular o brilho da história, dá a Audifax o condão que tem os autores de mexerem com a temporalidade, sem que isso perturbe ou aflija quem lê este livro.
Ora, Candinha, Orapronobias, , Padre Justiniano, Henrique Imaginário, Maria Guayana, Messias Salvador e muitos outros são mais relevantes e revelantes que os 12 búfalos trazidos da Ilha de Marajó e que, incontidos em sua sexualidade, transgrediram as leis da natureza e receberam, quem sabe, por castigo a morte coletiva ´à beira do abismo inacabado´.
Cada um desses coadjuvantes marca com ´letras capitulares´ todo o enredo que conta a saga, com um fim aligeirado, e a volta-fuga não bem explicada de Zegito para a Amazônia. Por estas e por outras não contadas é que me rendo ao título marquetado de ´Os Búfalos de Campanário´, mas faria, igualmente, elogios ao brilhante Audifax se ´O Zé do Campanário´ estivesse incrustado no frontispício deste primoroso livro que fecha com fulgor o ano da graça de 2003, tão rico em surpresa, quanto em desencanto, mas que prenuncia alvíssaras para todos no raiar do 2004. Os búfalos, afinal, já se foram.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2004.

