OAB, ALEGRIA E TRISTEZA – Jornal O Estado

Um dia, muito jovem, temos que fazer escolhas. E aí surgem as paqueras, amigos de longo curso, e opções de cursos que, admitimos, nos darão seiva para a vida real que vai chegando. E como não há lugar para todos, somos postos à prova em vestibulares para ratificar que sabemos mais que outros jovens, tão ou mais atarantados que nós. Por competência, sorte, persistência ou acaso, somos aprovados. Quase heróis, quase tolos, e aí seguimos o destino.
Fiz direito. Juvenil, sem cursinho, no tempo da única faculdade, pública, exame anual e concorrido. E assim me tornei bacharel em direito e advogado, pelo exame de Ordem, uma espécie de validação do curso. Empós, passei mais dois anos estudando direito, não para concurso. E, desde esse tempo, sou e não sou advogado militante. Apesar disso, fui, com muita honra, até Conselheiro da Ordem. Circunstância. Mérito, zero. Mesmo assim, por necessidade, leio, acompanho trabalho de jovens advogados e, vez por outra, tento me atualizar, ouso emendar petições iniciais, contestações etc.
Tudo isso é para dizer apenas que, por coerência, orgulho-me e alegro-me da escolha que me deu, entre outras coisas, embasamento filosófico para entender que a vida é um eterno contraditório. E aí veio esta eleição da OAB de 2006. Na sua primeira edição, o local quase virou uma praça de guerra. A par disso, o chão, coberto de papéis, estava feio. Do lado de fora, como se fossem donos das ruas, muitos paravam carros de qualquer jeito. Era o caos. Não era direito.
Esta semana, houve a segunda rodada e, afinal, a eleição teve cabo. O que ficou claro nesta eleição foi a publicização de um problema conjuntural da Ordem em face do elevado índice de inadimplência. Por qual razão isso acontece? Creio que, afora os caloteiros existentes em todas as profissões, a grande charada é o enxurro de milhares de advogados lançados, semestralmente, no mercado, sem haver uma demanda efetiva por seus serviços. Existem, se vocês não sabem, mil cursos de direito no Brasil. A maioria é de faculdades particulares, algumas poucas são ótimas ou boas, outras são razoáveis e há cursos péssimos. Isto não quer dizer que os cursos em faculdades públicas estejam melhores, mercê das greves sistemáticas, professores desmotivados, bibliotecas pobres e descaso de governos que as patrocinam. Mas eu ia falando da inadimplência, pois não há quase mercado de trabalho para os que não se agruparem em escritórios, uns suprindo as deficiências dos outros ou somando suas inteligências. E há ainda a opção dos concursos disputados para o ministério público, judiciário, defensoria pública e carreiras afins. E disso me ficou uma tristeza, pelo vexame de milhares tendo seus nomes expostos, revelando escassez de clientes, incerteza do futuro e sonhos guardados em um vade-mécum qualquer.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/12/2006.

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