Estava eu, ao lado de um amigo, quando um vendedor de loterias da Caixa ofereceu bilhetes. O amigo sonha ficar rico. A partir de então, procurei saber o quanto se joga nas dez loterias bancadas pela Caixa: Mega-sena, Lotofácil, Quina, Lotomania, Dupla-sena, Federal, Timemania, Instantânea, Loteca e Lotogol. Só no primeiro semestre deste ano, foram arrecadados R$ 2,53 bilhões de reais com jogos federais. Verifiquei ainda que para a Mega-sena, a probabilidade de alguém ganhar é de uma para 50 milhões. A psicóloga Vera Ferreira, da PUC-SP, diz que “a aposta se fundamenta na crença infundada de que a pessoa vai ganhar o prêmio. Ela não sabe nem quer saber que tem apenas uma chance em 50 milhões”. Nessa história, não fica claro quanto a Caixa paga e lucra com cada uma desses jogos. Sabe-se que parte(qual?) do dinheiro é pago aos Comitês Pára(deficientes) e Olímpico, ao Ministério dos Esportes, ao INSS, ao Programa de bolsas para universidades particulares, ao Fundo Nacional de Cultura e ao Fundo Penitenciário. Mas, com quais critérios? Quem os fiscaliza? Quanto sobra cada semana? Fiquemos apenas, por ora, com o que foi para o Comitê Olímpico Brasileiro que levou para a China, além dos atletas, 200 ‘não-atletas’, eufemismo para aqueles da `patota’. E como as televisões vendem anúncios caríssimos, fica essa patriotada no registro de ‘heroicas’ perdas e glória por choradas medalhas. Em 2004, em Atenas, ficamos em 16º. lugar, com apenas 10 medalhas, atrás de países como Cuba, Ucrânia, Hungria e Romênia. Qualquer pessoa sabe que esses países não gastam um décimo do que o Brasil. Por outro lado, além dos gastos que saem das loterias jogadas pelos pobres e a classe média, há ainda patrocinadores públicos, como a própria Caixa e a Petrobrás, e privados. É dinheiro muito. Creio que ninguém lembrará de pedir, após o provável fracasso brasileiro nas Olimpíadas, uma CPI para saber as origens e uso dessa dinheirama que escoa pelos ralos do citado Comitê ou de questionar suor dos que apenas viajam a passeio, pois poucos são os atletas que, de verdade, trazem algumas medalhas para o Brasil. Ia esquecendo: 2016 pode ser o ano das Olimpíadas no Rio. Bota dinheiro nisso.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/08/2008.

