ONTEM, DIA DA POESIA – HOMENAGEM A FRANCISCO CARVALHO – Jornal O Estado

Socorro-me com José Anderson Sandes, um jornalista tornado professor, e com José Lemos Monteiro, escritor e professor da Universidade de Fortaleza, para falar um pouco de linguagem ética, em homenagem ao 14 de março, Dia da Poesia, ontem acontecido.Poesias relembrando ainda Castro Alves, o grande condoreiro, e parabenizando a Regine Limaverde, uma poeta moderna, também nascida nessa data.
Sandes era o entrevistador, ao seu tempo de editor no Diário do Nordeste, em 02 de março de 2009, quando dialogou com Lemos sobre a linguagem poética. Lemos recorre ao formalismo russo, quando afirma: “os formalistas estiveram preocupados em descobrir aquilo que realmente caracteriza um texto como expressão poética. E, assim propuseram o princípio de que não é o autor, mas o modo peculiar de cada obra que deve ser objeto de cada análise. Em função disso, passaram a valorizar e pesquisar os elementos que se encontram imanentes no texto poético em si mesmo, como o estrato sonoro, o ritmo, a métrica, a rima etc”.
Tudo isso é para dizer a você ter sido escolhido o poeta grande, Francisco Carvalho, recentemente falecido, como o centro das atenções em exposição aberta pela Galeria BenficArte e a Academia Cearense de Letras. Foram escolhidos 14 poemas de Carvalho e mostrou-se a sua fortuna crítica. A Exposição está em curso e é gratuita.
Se você, caro leitor, chegou até a este ponto, certamente tem a sensibilidade de saber da importância da poesia na nossa vida. Dizia a Madame de Stael, escritora francesa do século 18:
“A poesia é a linguagem natural de todos os cultos”.É verdade. Entretanto, há pessoas a formular poesias, bastante diferente de ser poeta. Se ela não brotar como as águas surgidas por trás de uma pedra em pleno deserto, será um arranjo poético, se tanto, nunca uma poesia.
Louvo-me, outra vez, de Lemos para ir a Carlos Drummond de Andrade em seu poema “Ao Deus Kom Unik Assão”, na verdade, “Ao Deus Comunicação”. Pois bem, em parte desse poema, CDA, com todo o seu direito poético, escreve: “Eis-me prostrado a vossos peses/ que sendo tantos todo plural é pouco”. A ironia dele ao usar “peses”, como plural de pé, é parte de sua estilística.
Estariam os poetas a fugir do encontro com o sentimento e com a sua individualidade? Ortega y Gasset, filósofo espanhol falecido no primeiro quinto da segunda metade do século passado, asseverava: “Não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria”.
Francisco Carvalho era um criador de verdades. Veja estes versos: “Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração/ e o quanto sobra do naufrágio/das nossas utopias”. Ou quando fala, parecendo a fechar a última página do tempo maduro: “As minhas mãos/ já foram robustas/já plantaram/sementes de milho/nas terras dos filisteus/hoje só semeiam/ as lavouras do adeus”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/03/2013

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