OS CORREIOS, O HOJE E AS CARTAS DE(QUASE) AMOR ENTRE PESSOA E OFÉLIA

Hoje, pelos Correios, recebem-se cobranças bancárias, convites, propagandas, oferecimento de cartões de crédito, lançamentos imobiliários, cumprimentos de políticos no Natal e em datas aniversárias, agradecimentos de famílias dos mortos amigos e que tais.
Exauriu-se o tempo em que cartas nos traziam boas ou más notícias, esperadas sofregamente. O Carteiro é hoje um mero despachante abarrotado de envelopes em pastas a tiracolo cujos conteúdos nos dizem quase nada.
Hoje a comunicação é instantânea – pelo computador e telefone e, quase sempre, em palavras abreviadas, como se a pressa impedisse o outro de ser mais explícito ou cordial. Vivemos um tempo minimalista e volátil. Nada é permanente. Tudo é programado para cair em desuso ou ficar careta e antiquado. Os “nerds”, nome dado aos que se ligam em tudo na comunicação informatizada e que pouco se situam no nosso mundo, dito real, viram adictos em mudanças e criam comunidades com comércio e linguagens próprias.
A propaganda nos impinge todos os anos, lançamentos de novas versões de celulares, tabletes e computadores Nenhum de nós, os meros usuários dessas máquinas que usamos para o trabalho e a comunicação com amigos, tem o domínio absoluto dos constantes “upgrades” ou melhorias para os nossos notebooks e celulares, programados que são para a breve obsolescência.
Imagino, por exemplo, como seria a vida do poeta português Fernando Pessoa (1888 -1935), se vivo fosse agora. Pessoa usava vários heterônimos (criaturas inventadas por ele com profissão e características particulares, com estilos e modos dessemelhantes). Cito os principais: Álvaro de Campos (“Todas as cartas de amor são ridículas), Ricardo Reis(“Da verdade não quero mais que a vida”), Alberto Caeiro(“Não sei o que é conhecer-me”) e Bernardo Soares (“Mas não há sossego – e ai de mim! Nem sequer há desejo de o ter”). Se Pessoa tivesse um computador à sua mercê quantos mais heterônimos teria criado e o que eles não haveriam escrito?
Esta semana, conversando com o Embaixador português no Brasil, Francisco Ribeiro Telles, falei sobre a Coletânea das cartas trocadas entre Fernando e Ofélia Queiroz, que no Brasil sairá no próximo ano. Ele, como diplomata, falou sobre o tema, mas estava mesmo preocupado com as medidas fiscais que o seu país está a tomar de modo forçado. Este é o mundo que o Dólar, o Euro e o Yan criaram.
Voltando às cartas trocadas entre Fernando Pessoa e a quase-namorada Ofélia Queiroz, creio que elas dizem pouco, pois nada mais são que um quase com fim. Leio e adoto texto enviado por Isabel Coutinho para a Folha de SP. Pessoa sempre foi esquivo. Ele se auto define: “É preciso que todos, que lidam comigo, se convençam de que sou assim…” Assim como? Perguntaria alguém. Não sei.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/10/2012.

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