OS DETALHES IMPORTAM – Jornal O Estado

Quem usa dinheiro de plástico ou cartão de crédito/débito geralmente não sabe o que assina quando contrata com a empresa distribuidora. Na maioria das vezes, um “gerente de banco amigo” pede e você, como bom cliente, concorda. Vejo pessoas com dezenas de cartões desses em suas carteiras gordas. Não sabem o que estão pagando. Serão cobrados e renovados automaticamente. Nesta semana, li um artigo zangado de Lucy Kellaway, colunista do Financial Times, reproduzido aqui pelo Valor. Ela trocou de trem com um bilhete de preço superior ao cobrado naquele. Ao ser abordada pela bilheteira, mostrou o bilhete. A bilheteira disse: não vale. A senhora tem que pagar 91 Euros. Lucy respondeu: o meu é mais caro. Bilheteira: o seu só vale para aquele trem. Lucy: Por qual razão devo pagar? Bilheteira: A senhora deveria saber os termos e condições que estão disponíveis na Internet para usuários desta linha de trem. Enfim, Lucy acabou pagando, com raiva. Um dia desses entrei em uma grande loja e fiz uma compra simples. A vendedora me abordou com delicadeza: o senhor não quer receber o cartão tal? Respondi que não. Ela: é rápido e não custa nada. Para me ver livre da persistência, concordei. Depois de assinar um contrato e responder a um questionário insano que, idiotamente aceitei, ela disse obrigado e que eu receberia o cartão em casa. De fato, recebi não um, mas dois. No mês seguinte: vieram as cobranças de mensalidades dos cartões sem uso. Eu não havia lido os “Termos e Condições” que tinha assinado. As letras eram pequenas e o contrato/formulário era grande. O fato é que já procurei cancelar os ditos cujos cartões e até agora não consegui. O mesmo acontece com as compras pela Internet, com os bilhetes aéreos que compramos, não olhamos os “detalhes” e nos ferramos quando queremos mudar o dia ou horário. Todos os outros bilhetes são mais caros que os nossos, temos que pagar multa e ainda o custo financeiro ou avenças são prolixos e/ou chatos. Um exemplo típico: “Os clientes que usam este site devem estar cientes de que as páginas com endereço na internet tal são administrados por…” e tome blá, blá, blá sabido. A prova maior de que a maioria das pessoas não lê tais documentos foi a brincadeira feita pela empresa “Gamestation”. Ela mandou circular a seus clientes em que se comprometiam a vender suas almas. Dizia assim: “Se quisermos exercer essa opção, você concorda em abrir mão de sua alma imortal, e quaisquer direitos que você possa ter sobre ela…”. Quase todos concordaram. Sei que estou escrevendo sobre um assunto não muito leve, mas o meu objetivo é que você, a partir de hoje, não assine nada sem ler de fio a pavio, mesmo que isso tome tempo e sua vista fique cansada. O que vem depois que assinamos é que são elas. Experimente contatar para um Teleatendimento (call center) para ouvir a ladainha e a protelação de pessoas terceirizadas com nada a ver com a empresa responsável. Tudo na vida parece estar no detalhe que deixamos de ver.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/02/2011.

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