Há duas datas no ano consagradas aos pais. São festas móveis, aos domingos. O segundo domingo de maio, para a mãe, e o segundo domingo de agosto, para o pai. São feitas aos domingos, quem sabe, para não atrapalhar os dias úteis dos filhos tão embricados com as suas vidas. E os outros 363 dias? Todos os outros dias – e muitas das noites – são reservados aos filhos. Não vai aqui nenhuma queixa ou lamento. Mas, a história parece se repetir. Os pais são vistos, via de regra, como aquelas pessoas que cobram, tentam estabelecer limites, obrigam a estudar, verificam os boletins da escola, falam que determinadas amizades não servem e tentam até dar palpite sobre as escolhas para namorar ou casar. Como se ainda valesse…
Os pais são pessoas mais velhas. Vinte ou trinta anos é um tempo imenso para uma criança ou adolescente. Os pais têm costumes diferentes. E são ´chatos´, pois têm de levar, quase sempre ´à força´, os filhos à escola, seja puxando pelo braço, no colo, na garupa da bicicleta, no ônibus, no lombo de um animal, no trem ou carro. Os pais também puxam pelo dedão do pé para que acordem, colocam a pasta na escova de dente, dizem que a roupa não está certa e, cansados, à noite, ainda vão olhar os deveres de casa e as tarefas extras que a escola manda fazer.
Os pais não devem discutir na frente dos filhos, mas têm, a todo instante que separar as suas brigas. Os pais podem estar desempregados, salário atrasado, a empresa falida, mas precisam conseguir dinheiro para a comida, aluguel, conta da luz e da água, prestação disso ou daquilo. Quando se diz ´os pais´, estamos fazendo justiça a uma relação nova entre marido e mulher ou companheiros, pois ambos são provedores. Acabou-se aquela história do homem ir à luta e a mulher ficar em casa. Hoje, e já faz algum tempo, ambos vão à guerra e contam o suado dinheirinho para fazer face aos compromissos. É claro, há exceções, mas essas não contam.
Tudo isso é para dizer: todos os demais dias do ano são dos filhos, essas criaturinhas parecendo ´ter o rei na barriga´ e, quando crescem um pouco mais, a primeira coisa a dizer é: ´não pedimos para nascer´.
No domingo passado foi o dia do pai. Este ser mais periférico ainda que a mãe, meio abobalhado ao saber existir um inevitável hiato ou desencontro entre gerações e as perspectivas pessoais com os filhos amados e pelos quais deu e dá tudo de si. Em meio aos cafés, almoços, lanches e jantares no dia dos pais e das mães, surgem figuras novas das famílias, as noras e genros, enquanto os netos não entendem bem por que os seus avós estão ganhando presentes, pois nem pais são. Pois é…
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/08/2003

