Acabo de ler “Sermões de Pradaria”, poemas de José Telles, doído homem maduro, acostumado, por ofício, a abolir a dor alheia. Telles, médico e poeta, é, provavelmente, maior do que ele imagina ser como ente literário. Não sou de louvações. Dizem, até, que minha essência natural também se faz presente na parcimônia de elogios. Quem sabe.
Não gozo da intimidade de Teles. Trafegamos apenas entre copos, gente amostrada e trêfega de emoções em tardes volúveis e incertas de sábados. Como se aqueles momentos pudessem dar o perfil de cada um. Doce e falsa ilusão.
Telles revela ter amizades placentares e isso deve ser bebido em virtuais taças amnióticas. É preciso sempre ter cuidado com os cordões umbilicais que transcendem as placentas. Cortar é, paradoxalmente, muitas vezes, atar e dar nova vida à vida.
O poeta escancara louvor a algumas mulheres – maravilhosas, segundo ele – com a admiração do pôr do sol. Se fosse psicanalista diria que Bitupitá, onde Telles nasceu, fica do lado onde o sol se põe e essas mulheres são, talvez, mulheres de não-bitupitá ou a negação inconsciente do regaço primal. Sei lá. Quem sabe, as mulheres de Bitupitá não são, em sua singeleza, maravilhas verdadeiras? Conheceram o Telles desnudo, sem sobretudo e cachecol, e o aceitam assim.
Creio que a poesia de Teles o autoriza também como anestesiologista, pois fornece o substrato humanista tão importante no trato com a alma do paciente. Mário Quintana, já maduro, disse algo muito profundo: “cada verso é uma pergunta do poeta”. Telles é, portanto, um homem de muitas perguntas, profundas, nada cutâneas.
“No meio dos meus amigos, ninguém percebe que meu sorriso é alheio”. Discordo. Os verdadeiros amigos, dito placentares, sim, sabem dos nossos choros antes das lágrimas. Dividem as alegrias e desenganos, conhecem nossa alma. Jacques Derrida sentencia cruelmente: “quando os amigos se multiplicam, a amizade desaparece”. Fico no meio termo, entre a placenta e Derrida.
“Ah! Esse pedaço de tarde sem mistério é dono da minha angústia e sócio dessas lágrimas e o meu raciocínio é a face trágica da espera”. Lindo, mas o poeta imagina ser o único condômino da dor. Alguns, pensam até ser o síndico da angústia e das lágrimas. O poeta vê a dor sem o recurso anestésico dos comuns. E os comuns veem os poetas como a propagação desmesurada da aflição instantânea e deveras passageira.
“Em compensação, meu corpo dorme e cansa quando começa a dança louca dos meus sonhos”. É isso aí. Na idade do pôr do sol, o cansaço já não é mais um adicto, é companhia impregnada, servindo para estabelecer modos aos nossos loucos sonhos e tornar-nos aptos ao real.
“E num galope aberto canso meus momentos a caminho das estrelas. Viajo nas caravelas do medo ou nas fúrias das marés, dentro dos quartos de luas e dos segredos do mundo”. Poderia ter sido escrito por um poeta consagrado. E cá fico eu, espião amador da arte alheia, deixando apenas o pulsar da emoção compartilhada, cúmplice sentido.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2001.

