Um dia desses, ouvi um avô compenetrado dizendo ir ensinar o aprendido na vida a seus netos. Suas experiências seriam passadas para servirem de referência aos netos. Ora, a experiência dos avôs quase nunca é válida para a nova realidade vivida pelos netos. A velocidade atual do mundo envelhece o dia de ontem. Daí eu pensar diferente.
Neto é para desfrute. Neto é uma espécie de filho de estimação. Avô não é para ensinar neto a escovar os dentes, estudar nas horas certas, tomar remédio para isso ou aquilo, nem a se portar direitinho na frente das visitas. Neto é para bagunça, desfrute, prazer puro.
Fui um pai presente. Tentei fazer a minha parte. Acompanhei as primeiras aulas do maternal, conferia boletins escolares, servia de despertador pela manhã, ia aos pediatras, ajudava nos estudos, comparecia a reuniões de pais e mestres etc. Fui não, sou um pai presente, continuo cobrando. Imaginando estar fazendo tudo na melhor das intenções. E o pior é que posso estar redondamente enganado. Paciência.
Agora, com netos, a história é diferente. É só bagunça. Sou, para quem não sabe, um avô novato. Tenho pouco mais de três anos na profissão que é exercida com uma certa dificuldade, pois se o pai é um ser periférico, imaginem um avô.
Mãe e avó acham que eu só quero perturbar. E, o pior, é que elas podem estar certas, pois não acredito que possam existir regras no relacionamento entre pessoas sem juízo. Umas porque ainda não têm e, a outra, por estar pouquíssimo preocupada em usar o pouco que tem – se é que ainda resta algum…
Na fase em que estou vivendo, isto é, na infância do meu avozado, tenho mais é que mandar tudo para o alto. Pena eu não exercer o papel de avô bagunçador em toda plenitude. Ainda tenho milhas e milhas a percorrer antes de dormir, como diria o poeta americano Robert Frost.
De qualquer modo, vou soprando os pés, fazendo cócegas, dando biscoito, fazendo barulho na barriga, beliscando, de leve, e batendo testa com testa.
Pensando bem, talvez tudo isso deva ser feito com os filhos. E se faz. Mas, tem a história de estabelecer limites, colocar para estudar, ensinar bons modos, levar ao médico, dentista etc. E, aí, a história complica um pouco.
Com neto, a coisa muda de figura. Não precisa bancar o durão e fazer de conta que está com raiva. É, exatamente, o oposto. O avô deve se especializar em “desensinar”, em confundir, em contar estórias sem pé, nem cabeça e não se importar que o filho ou a filha diga que ele está deseducando. Está mesmo. É para isso que avô serve; uma espécie de Piaget aloprado, pelo menos, enquanto os netos não crescem.
Mesmo sendo você um avô neófito, como eu – uma espécie de aprendiz de avô –, não vá muito nesta minha conversa maluca. Você tem o seu jeito. Estou falando do meu, que não serve de exemplo para ninguém. Na realidade, não posso – e nem quero – dar exemplos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/08/2000.

