PAI – Diário do Nordeste

Hoje, dia dos pais, como lembro do meu. Ele foi um vencedor, na sua maneira simples de viver, sem certificado de santidade, cheio de defeitos e pleno de talentos. Resolvia quaisquer quebra-cabeças com facilidade. Estudou por anos em seminário franciscano de onde saiu para o mundo real. Fez um pouco de tudo. Foi ‘intérprete’ de gringos à época da Segunda Guerra e se orgulhava de ser autodidata em inglês, tendo aprendido pelo método de, se lembro bem, um tal de Neif Antony Allen. Educou, junto com a guerreira da minha mãe, nove filhos, em escolas particulares, e se orgulhava de todos terem formação superior. Teve empresa de táxis, pilotava aviões, praticava jiu-jitsu, fundou indústria de sabão – que nunca deu certo – e criou uma metalúrgica que hoje é de irmãos. Foi presidente de clube de futebol, criava cavalos, puro-sangue, ingleses que corriam no Jockey Club, do qual era diretor. Meteu-se em política, tendo sido vereador e secretário de serviços urbanos que, à época, administrava quase a totalidade dos serviços prestados à cidade. Foi escolhido, sem picaretagem, mais de uma vez, secretário do ano, o que não o impedia de criar canários e campinas. Quis ser candidato a deputado e eu disse – como filho mais velho e intérprete da família – que deixasse a política e voltasse à rédea de seus negócios. Aceitou, resmungando. Passou a ler mais romances policiais e a cozinhar peixes e crustáceos aos fins de semana. Fumante inveterado, na década de oitenta seu coração andou fraquejando para tristeza de seus nove filhos, espalhados pelo Brasil, Estados Unidos e Europa. Pedi que fizesse um cateterismo. Fincou pé e não o fez. Queria morrer inteiro, dizia. Parou de fumar, sem deixar de beber socialmente, e viveu até aos 70 anos quando, ao fechar o portão de sua casa em um fim de tarde de sábado, teve um infarto fulminante e morreu nos braços de minha mãe, com quem viveu 50 anos de dores e amores. Hoje, se vivo fosse, receberia abraços e carinhos de seus filhos e telefonemas de netos de múltiplas profissões, tais como, médico, psicólogo, administrador, advogado, arquiteto, tradutor, analista, empresário, espalhados pelo Brasil, Espanha e Alemanha. Pai.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/08/2008

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