PAI EM FORMAÇÃO – Diário do Nordeste

Repito-me, ano a ano. Sou pai dos anos setenta. Jovem, não entendia da vida de casado ou de puericultura. Fui tateando por leitura, intuição e senso comum. Acompanhei pré-natais, partos, visitas a pediatras, escolas, primeiro dia de aula, festinhas de aniversários, primeiras comunhões, natais, carnavais e que tais. Como o diálogo adulto/ criança não é simples, criei dois personagens para auxiliar: Paulinho e Rosinha. Irmãos, exemplares, moravam por perto, um pouquinho mais velhos e nunca os encontrávamos. Rosinha era estudiosa, obediente, não brigava com o irmão. Paulinho era alegre, compreensivo e dividia o que tinha com a irmã. Foram crescendo. Frequentei reuniões de pais e mestres, festivais de dança, vestia camisas borradas de tintas por elas e usava de inventividade nos aniversários. Em um deles aluguei ônibus e saímos, com outras crianças, passeando pela cidade, ouvindo música, vendo animais, parques, fazendo a festa ao ar livre. Cresceram. Veio a fase difícil da puberdade e no meio de cinco mulheres, eu, meio sem jeito. Era comunidade feminina ciumenta e possessiva. Acontece que além de pai, era marido. Já adultas, ocorreu a separação, difícil, e o divórcio. Sofreram. Sofri. Superamos. Hoje, elas têm filhos e sabem o que criança cobra e apronta. Uma me disse: “pai, as minhas filhas têm o mesmo ciúme de mim que eu tinha de você. Estou pagando”. Outra: “A oldest lê igual a você”. Outra mais: “O caçula tem seu temperamento”. Rosinha, o personagem, parece rediviva. Na medida da ignorância paterna, minha versão é mais amena. Tentei passar o que intuía, imaginava que sabia e o que admitia ser correto. Nossa casa, grandes árvores frutíferas, era um mini-parque ecológico/esportivo a acolher amigos para brincar, estudar e celebrar. Acordava-as, não faltava às refeições, chegava cedo do trabalho, íamos, por anos, à praia da Tabuba, viajávamos nas férias e ajudava nos deveres escolares. Acompanhei escolas, vestibulares, fins de cursos, procurei tê-las por perto no trabalho. Vieram namoros, fases difíceis, noivados, casamentos, partos e, agora, aniversários de netos. Hoje, dia dos pais, posso dizer a elas: contem comigo.

João Soares Neto,
escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/08/2011.

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