PAIS, IGNORÂNCIA E APRENDIZADO

Quando minhas filhas foram nascendo, procurei em livrarias do Rio e de São Paulo algo que me desse subsídio para entender de crianças. Não havia nada, exceto “O Livro do Bebê”, do dr. Delamare e chatos livretos de fundamentação religiosa. Fiquei meio perdido. Já havia feito cursos disso e daquilo, aqui e no exterior, mas não tinha aprendido nada sobre a difícil tarefa de ser pai. Falava com pais mais velhos e não recebia muita luz. “Cada filho é um filho”, “palmada só se perde a que não dói” e outros que tais. Resolvi pensar sobre o assunto. Lembrei da minha infância, éramos nove irmãos, compartilhando quartos, banheiros, toalhas, sabonetes, fardas que passavam dos mais velhos aos mais jovens e os livros escolares encadernados com papel madeira para durar dois ou mais anos.
Depois de um tempo matutando, inventei dois personagens, Rosinha e Paulinho. Os dois seriam um pouco mais velhos que minhas filhas e não estudariam no mesmo colégio, pois assim poderia ser descoberto o mistério. Rosinha seria um bom exemplo de estudante, sempre uma das primeiras da turma, alegre, comunicativa, compreensiva e não se deixaria abater quando o Paulinho brigasse com ela ou não quisesse dividir a merenda etc.
Deu certo. Quando algo acontecia fora do “script” familiar, eu me valia da Rosinha e do Paulinho. Eles tomavam banho quando voltavam da escola, não deixavam roupa molhada sobre a cama, faziam o dever de casa, dividiam as coisas, moravam no mesmo quarto e brincavam muito. Paulinho e Rosinha “existiram” até minhas filhas ficarem adolescentes. Nessa época, falei para elas da minha “invenção” como um recurso para lhes passar mensagens, ensinamentos, especialmente sobre o compartilhar, amizade etc. As minhas filhas riram muito, pois nunca “encontravam” a Rosinha e o Paulinho, a quem elas tanto queriam conhecer, especialmente quando passeávamos de carro ou íamos à praia. Sempre eu dava um jeito: eles acabavam de sair, estavam viajando etc.
Recentemente, uma filha, já casada, disse-me que tinha “ressuscitado” a Rosinha e o Paulinho. Estava falando com sua filha – e minha neta – sobre o bom comportamento da Rosinha e do Paulinho, especialmente sobre cuidados com livros, a atitude de compartilhar, aceitar as diferenças e ouvir. Agora, havia chegado a minha hora de rir.
Hoje, com tantos livros de autoajuda, Internet, reuniões de pais e mestres, talvez não seja mais necessário inventar personagens, mas alegra olhar para o passado e lembrar que vivências podem decorrer da mera imaginação e interação dos pais com os filhos. Procurando não ser caretas, mas realçando exemplos, respeitando o próximo e gerando união através de pequenos gestos, como o que faziam, entre outras coisas, as minhas filhas que passavam o ano poupando e guardando presentes para distribuir, pessoal e anonimamente, no Natal. Coisa que só vim a saber tempos depois.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2005

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