PALAVRAS SINGULARES – Jornal O Estado

Márcio Catunda é um duplo, sempre. Advogado e diplomata. Cearense e cidadão do mundo. Poeta e ensaísta. Prefere o Catunda, que adotou desde sempre, ao Ferreira Gomes, que omite e não se vale da notoriedade de outros para acoplá-lo de fato, pois de direito já o é. Ao mesmo tempo em que tirava de letra o curso de bacharel em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, dava rumo à sua nau poética aportando em grupos culturais e fazia-se presente aos “points” que a cidade abrigava sem medo de, àquela época, ser contracultura ao ouvir vozes roufenhas de poetas e cantantes.
Inquieto, optou, logo em seguida, pela carreira diplomática e o fez com êxito. Agora, após ter velejado por mares e malas diplomáticas do Peru, de Mario Vargas Llosa, da Suíça de Herman Hesse, da Bulgária de Julia Kristeva e de Portugal, de tantos, que só nos bastam Camões e Pessoa, ele volta, com suas diopitrias, como sempre, à cidade que o preparou para a vida. E vem de livro em punho e pronto. Capa verde como a esperança, retrato fotoshopeado (valha-me Deus pelo neologismo) e em 195 páginas diz palavras, não as singulares do título, mas com a energia do tiete que se aproxima de gurus, a sensibilidade do poeta que é e de uma espécie de “realpotilik”, de um novo tipo de ensaio.
E o faz nestas “Palavras Singulares”, em que se divide entre o lirismo etílico do poeta Vinicius de Moraes, seu duplo colega, pois ambos vadeiam pelas metáforas e nas aléias atemporais da Casa de Rio Branco, o Itamaraty; Cid Carvalho, múltiplo duplo, pois poeta e político, radialista e professor, espírita e bibliófilo, acadêmico e criador de passarinhos, por toda a vida e; Mário Gomes, essa figura que todos veem e poucos o sentem em sua educação deseducada, no paletó amarfanhado como o seu rosto em um constante esgar a espreitar lugares, pessoas e acontecimentos.
Como já disse e repito: nada tenho de crítico literário, tampouco de resenhista, mas resta-me a condição intransferível e inalienável de ledor ou leitor. E nessa condição percorri e percebi com os olhos reais e os da alma o encanto que Vinicius e pessoas de Fortaleza exercem sobre Márcio Catunda. Ele reata também os laços afrouxados com a cidade tão cantada, festejada e hoje tão sofrida, a mercê de uma desenfreada prostituição genérica a céu aberto contemplada e sempre à espera de milagres em uma próxima eleição. Como fala o próprio Márcio: “Eu canto o advento do novo mundo e da nova era, mas não tenho a pretensão de ser profeta”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/08/2008

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