Ao redor de minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, do trabalho e no carro. Os papéis vão tomando todos os espaços de mesas e das cadeiras. Uma bagunça. Hoje, resolvi fazer limpeza nesses papéis avulsos. Estou gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros alérgicos e culpa. Será que não precisarei disso ou daquilo em algum tempo? Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, percebo que falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a crítica aguda machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, no “ A Sereníssima República”. A propósito, a nossa República não anda nada calma. Há excesso de questões irresolvidas entre os poderes e as mídias– que ainda incluem o papel dos jornais, revistas e livros – nos mostram as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados. Partidos e sindicatos, malthusianos como polvos, ocupam espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado por falta de confiança em auxiliares que escolhera como confidentes. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos em burocracia, dificuldades com soluções negociadas.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2012

