Não é só a edição desta semana da revista Veja que escreve sobre a morte anunciada de parte da África. Há dezenas de anos, desde o século passado, que sabemos disso e pouco fazemos. Uma vez, faz tempo, vi um filme em que gente africana, tangida pela fome, tentava atravessar o Estreito de Gibraltar. Causava um transtorno grande na Europa. Agora, correu pela internet um raro e-mail sério em que se fala expressamente que toda a fome do mundo seria resolvida com 40 bilhões de dólares. Milhões de pessoas poderiam entrar na história da civilização como as que sobreviveram da fome e das guerras tribais, graças a uma ação conjunta da humanidade. Digamos que, cessadas essas guerras e a fome dessas pessoas, se investisse mais 40 bilhões de dólares com habitações, infraestrutura, geração de empregos, alimentação e educação. Total: 80 bilhões de dólares. Pois bem, sabem quanto os Estados Unidos e a União Europeia já gastaram para tentar resolver o problema da atual crise financeira do mundo? Dois trilhões de dólares. Não escrevo em numeral, pois são tantos os zeros. E esses dois trilhões não asseguram nada, pois são injetados não diretamente na economia, mas para socorrer empresas e agentes financeiros que quebraram ou estavam a quebrar por conta de suas ganâncias ou incompetências. Havia executivo de empresas multinacionais que recebia, por ano, mais que a arrecadação fiscal de uma cidade média de um país em desenvolvimento. Pela minha própria história de vida não poderia ser contra pessoas que crescem profissionalmente e têm recursos e recato, até de sobra, para seus herdeiros. Daí a compactuar com a ação de bancos centrais e governos que se aliam para socorrer os que não souberam gerir seus negócios e créditos ou limitar suas ambições, a estória é outra. Esta crise anunciada poderá até ser benéfica se, no bojo dela, existir um tempo para a análise coletiva e profunda de suas causas com soluções globais. Não a análise de economistas que não viram o “tsunami” se formando e apenas explicam o óbvio, depois do fato acontecido. A análise deve ser feita por sociólogos, antropólogos e gestores públicos e privados que não tenham ainda sido mordidos pelas certezas de convicções e tampouco sejam frequentadores de convescotes em Davos ou similares. Nós, os do planeta Terra, temos de admitir que talvez não estejamos aproveitando os últimos avanços tecnológicos para o bem da humanidade, mas como instrumentos de intimidação, espionagem e até de devastação dos recursos verdes. Essa conversa poderia ser em outro tempo e não no limiar de um Novo Ano. Acontece que os que têm algum espaço, não podem perdê-los com o desfrute do próprio umbigo. O ano será novo se mudarmos, mesmo que um pouco, os nossos pensares individuais e coletivos. Caso contrário, é bom lembrar que um 8 é quase igual a um 9, bastar apertar um pouquinho do lado de dentro. Viva 2009.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/12/2008

