Não há como fugir do assunto. Procuro pensar em outra coisa, mas sobreexiste uma recorrência: fim do século. Hoje é o último dia do século em que todos nós nascemos. Amanhã, com o mesmo sol, a mesma lua, o mesmo mar e a mesma terra estaremos vivendo um novo século e outro milênio. Nós somos gente deste século, carregando em nossos corpos e almas as venturas e desventuras de um mundo que não é mais o que recebemos ao nascer.
Somos seres transformados, urbanos, carentes e plenos de dúvidas. Podemos até fingir o contrário, mas vivemos na era de extremos de que fala o historiador Eric Hobsbawn. O que sabemos do que vai acontecer em breve? Somos passageiros do tempo em um veículo em movimento com muitos pilotos e sem destino certo, pois não chegam a um acordo.
A sua inocente lista telefônica é feita por uma multinacional e foi impressa no exterior, o refrigerante que você consome, o ônibus e o carro em que andamos são todos produzidos por empresas cujos empregados nunca conhecerão os seus donos. A estrutura é maior que a pessoa, independente da sua importância.
Você está lendo um jornal impresso com tecnologia de ponta. Escrevi este artigo em um computador e o mandei por e-mail. O jornal é todo diagramado sistemicamente e a impressão é feita com um mero apertar de botão. Você vive a tecnologia, por mais simples que seja a sua vida. Não dá para se livrar dela. Um caixa de supermercado trabalha on-line. Ao mesmo tempo em que você compra um sabonete, o estoque é baixado e já entra na nova programação de compras. O operário mais humilde recebe seu salário em um caixa eletrônico, sem ninguém para ajudá-lo, pois a senha é só sua. Isto é o começo do novo futuro.
Nós todos somos mais urbanos. A população agrícola caiu, mas os equipamentos substituíram a mão de obra. Estudamos muito mais que no passado, embora ainda existam milhões de analfabetos em todo o mundo. Tivemos guerras, genocídios e ainda não conseguimos debelar doenças endêmicas e a fome. Mais de um bilhão de pessoas vive no mundo ganhando dois reais por dia. Mas, mesmo a indiferença já parece ter seus dias contados. Há uma ordem jurídica em transformação clamando por ética, pois até os Estados Unidos e a Europa estão sitiados pela imigração e não têm outra saída. Terão que entender a nova ordem do mundo, apesar da ganância das corporações. Devemos ter a consciência de que somos afortunados, em meio às limitações de um mundo desigual que nos angustia e causa perplexidade.
Enquanto isso, temos que reaprender o que fazer dos relacionamentos humanos, base primeira de nossa passagem pelo tempo. Temos que reaprender a conviver, a fazer escolhas e admitir responsabilidades, pois muitos estão perdendo os elos; o medo e a busca por segurança não devem nos enclausurar. Somos seres afortunados, apesar de todas as limitações de um mundo desigual que nos angustia e causa perplexidade. Não podemos viver sem utopias, somos prenhes de esperanças e isto é que nos faz bancar crianças à cata de um novo tempo, que virá com a graça de Deus, feito por nós, suas criaturas.
Precisamos estar juntos, apesar das nossas diferenças. Dois mil e um votos de felicidades para todos.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/12/2000.

