PASSO A PASSO – Diário do Nordeste

Estou entre o ano acabado e o chegado. Ainda guardo em mim cheiros de ontem, rastreio olfatos esmaecidos e descubro o sem fim do tempo e a finitude das pessoas. Meu pé esquerdo ficou no passado e o direito teima em ser presente. Mexo em ordenadas e abscissas e não encontro o Equador. É preciso estar na linha para encontrá-lo. Mas minha pele sente o seu calor visceral. Não sei bem se venho do passado ou se meus passos fugiram de lá. Meus caminhos são triviais, há sempre as mesmas pedras, mas, por elas, já passaram outros pés e a areia pisada deixa as minhas solas e cai, grão a grão, entre as fendas. Minha alegria tem dioptrias certas e o meu riso é criança. Nas barricadas da vida luto, muitas vezes, como um infante sem fuzil ou quartel, mas vou quebrando lanças e seguindo, passo a passo. Sonhei com o futuro e ele se fez presente, como presente. E o agora já é passado e o futuro passa. Albergo pensamentos e fazeres trazidos até aqui pelas carroçáveis da vida, ultrapassando porteiras e ribeiras, evocando a lua sem vergonha e dormindo sem sombras. Raras são as chuvas de lágrimas, mas consigo tirar do úbere da terra a semente para o plantio do novo dia. Mesmo tendo havido tormentas, elas se quedaram com as enxurradas do ontem. Miro a essência da vida e sinto as tramelas das portas se abrirem e assomo o seu umbral. E isto importa se há sempre mais portas a abrir? Estou na calçada de um novo tempo, não embarquei em suas veredas e desconheço suas entranhas. Não tenho passaporte para todos os dias, cada um precisa de um visto diferente, depende da lua, depende do sol e de nós, navegantes em terra firme. E se há flores na calçada onde estou foram por mim plantadas, regadas com meu suor e podadas com minhas mãos. E, certamente, há espinhos, também meus. Os passos de cada dia têm registros no cerne da alma e formam a vida com a tonalidade merecida. Os olhos das estrelas podem não ver os meus passos, mas as estrelas têm olhos e registros siderais. Beijo a boca da noite a se aproximar, deixo-me por ela amar e cingir meu corpo com esperança.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2009

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