No Brasil tudo é exagerado. Na sexta-feira passada, todos estavam ansiosos pela folga do carnaval. No expediente da tarde as coisas se arrastavam. Ninguém queria mais nada com nada. Perguntei aos meus próximos o que iriam fazer. Praias, viagens longas de até 1.200 quilômetros de carro, serras e que tais. Dos que ficaram em suas casas, poucos os com um livro às mãos. Estavam a mudar de canal para ver mais do mesmo ou trocavam mensagens e fotos em seus celulares. São os tais solitários conectados, quase sempre em busca de fatos desairosos ou de humor duvidoso.
A característica desse tempo foi a obrigatoriedade de parar a “chata” vida e fazer dos dias de folga o que bem aprouver. Cada qual com a alegria surgida do nada. Férias curtas com desgaste de energia e de dinheiro. Época da concessão geral e do encontro com o outro eu, aquele sem censura, enrustido nas conveniências do grupo em que cada um se enquadra.
Em Fortaleza, consolida-se uma forma auspiciosa de fazer carnaval. A partir da descentralização das áreas de atração em diversos bairros, dos muitos blocos, dos cordões, dos abomináveis paredões de som e o “aterrinho” da Praia de Iracema como palco principal da festança. Na Avenida Domingos Olímpio, os combatentes, novos ou antigos, dos maracatus, das escolas de sambas e dos cordões têm bem cuidado espaço reservado no breve corredor e uma estrutura profissional de arquibancadas, locais de filmagens e boa iluminação.
As mortes em estradas, os assassinatos, passam como meras estatísticas, enquanto famílias perdem provedores e entes queridos. Os acidentes com os grandes carros alegóricos no Sambódromo do Rio de Janeiro a causar 32 feridos, ganham manchetes e mostram a necessidade de acompanhamento técnico na fabricação e montagem das estruturas metálicas, suas interconexões e suas soldas. Isso é assunto de engenharia. O motorista, de um dos carros, sequer tinha visão livre, em face dos adereços.
Na volta ao mundo real, que não parou lá fora, o Brasil retoma, na próxima segunda-feira, o feijão com arroz da político-econômica, enquanto jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, retomam a mesma pauta. A mesma de sempre.
Além do carnaval, só as notícias do “Oscar”, com erro grave da PwC, encarregada da gestão dos votos, na principal decisão da noite: o melhor –não para mim – filme (Moonlight, sob a Luz do Luar). Um diretor negro, Barry Jenkis, de 31 anos, ganha, depois do duplo equívoco de Faye Dunaway e Warren Beatty (será que enxergavam direito o que liam?). Os do filme “La la Land” que, haviam subido ao palco, devolveram os troféus recebidos, tiveram cinco minutos de glória e o resto da vida de desapontamento.
No “Oscar” do ano passado houve queixa geral por não figurar um só ator ou diretor afrodescendente entre os vitoriosos. Este ano aconteceu o inverso. Hollywood mudou de tom e exagerou na dose. A cerimônia é longa e chata. São tantas as categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor filme estrangeiro, melhor animação – desenho animado, melhor roteiro original e, para não cansar mais, fico por aqui.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/03/2017.

