Depois que algumas pessoas descobrem o nosso e-mail somos bombardeados com estorinhas, fábulas, contos, mensagens, pedidos, pesquisas, correntes, cartoons etc. Isso faz parte da aldeia global em que nós, índios incultos, estamos ainda engatinhando, sem saber onde isso tudo vai dar.
Um desses textos, de autoria de Olavo de Carvalho, extraído do livro “O Imbecil Coletivo”, mostra o que o cada um deve fazer para ser “politicamente correto”. Pessoas mal comportadas como eu, sem a sabedoria para falar o que os outros desejam ouvir ou calar diante de asneiras ou poltrices, precisam conhecer, pelo menos, um capítulo que trata de “como se tornar uma pessoa maravilhosa”.
O sonho de todo mundo é ser feliz, se mostrar culto, inteligente, agradável, suave e socialmente aceito. Pois bem, ai vão algumas normas de conduta e frases chaves que adaptei a serem usadas nos coquetéis, nos bate papos, nas conversas com intelectuais etc. Conheço gente, por exemplo, que não lê livros e pergunta com um ar pseudo-interessado: “qual o livro que você está lendo?”. Não é para esse tipo de pessoa que estou escrevendo. Estou escrevendo para os que ainda não sabem fingir e dizem o que pensam. Aproveite, a sociedade gosta de gente leve, agradável e falsamente cordial.
01. Não fale dos outros. Fale apenas do que já estão queimados tipo: Collor, Maluf, Quércia, George Soros, Bill Gates e aquele direitista austríaco, Haider. Os demais devem ser tratados como “pessoas maravilhosas”, “um ser humano muito especial” etc
02. Procure não entrar em disputas verbais. Caso entre, não tente provar que suas convicções são verdadeiras. Saia-se com a frase “não há verdades absolutas”.
03. As idéias conservadoras ou conhecidas como tais devem ser tratadas como “preconceitos”. O uso da palavra preconceito poderá ser muito útil e é vaga.
04. Trate de saber o que o grupo ao qual você está inserido pensa e não martele contra. Seja suave nos seus juízos de valor. Contemporize.
05. O socialite adora posar de socialista. Veja, por exemplo, com simpatia os movimentos dos sem terra, o PT e o “Greenpeace” (grinpice).
06. Em matéria de sexo concorde com a maioria, sem ter medo de passar a imagem de avançado, de quebrador de regras. Fale em sexo seguro e diga que o governo deveria destinar mais verba para as campanhas e tratamento da Aids.
07. Em manifestações sociais trate de expressar os sentimentos coletivos, mas não esqueça de se mostrar um pouco herético, não-conformista e um quê de excluído.
08. Não fale que é católico, protestante, espírita etc. Fale em duendes, anjos, manifestações afro, new age, Lair Ribeiro, Paulo Coelho, Santiago de Compostella, ficar zen etc.
09. Em papos literários é preciso mostrar um ar atento quando citarem alguma obra. Diga, com um jeito blasé, que “ela rompe com as convenções do gênero”. Não significa nada, mas agrada.
10. Demonstre saúde, bem-estar e prosperidade para ser uma pessoa maravilhosa.
Boa sorte.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/03/2000.

