As belas poesias (quem me compra um jardim com flores?) infantis de Cecília Meireles parecem não ter sido lidas ou introjetadas na infância de suas filhas. Cecília tinha talento, publicou obra vária e respeitável. Morreu, mas os poetas viram versos no além. Cá, na terra do aquém ou de ninguém, ficou a família a se apoderar do tesouro, a obra literária de Cecília. Ganharam com ela, mas depois, insatisfeitos com o apurado, brigaram. A justiça foi chamada e a justiça não foi feita. Feia é a briga pública e publicizada por filhas e sobrinhos que, certamente, não versejam e não estão nada prosa para a memória da mãe-tia-poeta. Faz dez anos que se engalfinham em vários processos e matam a galinha dos ovos de ouro, pois discutem quem tem direito a que, enquanto a sua obra fica fora das editoras e livrarias. O fato é que literatura também dá brigas familiares e demandas judiciais. Há tantos casos de famílias de autores engolfada em querelas. Cito apenas os notórios: Monteiro Lobato, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Mudemos de arte. Nas artes plásticas existem os casos públicos e insolúveis dos herdeiros de Alfredo Volpi e Lygia Clark. Agora, igualmente, querem fazer dinheiro com a memória da cantora e artista Carmen Miranda, morta há 55 anos na Califórnia, e que nunca teve filhos. Familiares colaterais e detentores de direitos autorais aqui e aventureiros nos Estados Unidos se desunem para tirar vantagens em um filme que seria mero caça dinheiro. Começaria pela pobreza do título: “Maracas”. É sempre assim. Imaginem então o que não acontece com as heranças dos, não literatos, os plantadores em terra adusta, limpadores de ervas daninhas com suas mãos sofridas, adubadores e regadores com seus suores para verem as árvores de suas vidas crescendo, sem tempo até de provar dos frutos, pois cuidam das cercas contra os invasores, os que não plantam e querem roubar os frutos alheios. Deixemos os usurpadores de fora. Fiquemos apenas com as famílias e já será muito. Quantas empresas, desde mercearias de subúrbio até conglomerados, definham, acabam ou são vendidos pela ganância, incompetência e desamor de filhos e agregados. Deixam as árvores sem rega e procuram apenas saber quanto apuram com a venda dos frutos maduros. Não sabem que cada palmo de terra foi cuidado com desvelo. Não sabem quantos dissabores alguém há passado para, pouco a pouco, ir consolidando o que, logo após sua morte, será dissipado com desamor. Vender e o mote: isso dá trabalho. Martin Lutero, o insuspeito reformador alemão que fundou uma nova religião pelos desencantos com a Igreja de Roma, dizia que a família é fonte de prosperidade, mas também é de desgraça. Ávidos, quase sempre, herdeiros sequer querem saber o que os pais fizeram, suas dores e percalços, suas histórias, sejam obras imateriais, bens ou pecúnias. Não lhes custou nada essa longa fadiga, apenas são ciosos dos “seus direitos” e engordam advogados para dividir, sob luta, os despojos do que encontram e sequer respeitam, pois não há amor pela criação e feitos do(a) falecido(a). Só quem ama pode admirar, cuidar, respeitar e ter vínculos de afeto. Na linguagem dos matutos há uma frase cáustica: “Filho só puxa ao pai quando o pai é cego”. Entretanto, Cervantes, o quixotesco, amenizava: “Os filhos são pedaços das entranhas e, sejam bons ou maus, sempre se lhes há de querer como as almas que nos dão vida”. A História não registra filhos de Cervantes.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/07/2010.

