PORTA DA IGREJA – Diário do Nordeste

Manhã e dia de trabalho. Sol forte. Acompanhava o trânsito lento da Rua Moreira da Rocha quando tudo empacou. Estava ao lado da Igreja da Santa Luzia olhando para a esquerda. Vi o simpático Padre Apolônio ao lado de outra pessoa, também de “clergyman”, verificando o exterior do templo. Aprumei a visão e conclui que o outro era o Arcebispo de Fortaleza, Dom José Antônio Tosi.
Tráfico, parado. O que fazer? Estacionei o carro e fui ter com os dois. Interrompi o que falavam dando bom dia e perguntei a D.José Antônio, com quem nunca falara, porque ele aparecia tão pouco. Foi o bastante. Ele, mais ou menos, retrucou assim: estou com erisipela de tanto andar pelas comunidades de Fortaleza. Procurei dizer que não me referia às comunidades, mas Fortaleza, como um todo. O antístite não me deu tréguas: Estou cansado dessa história.
Padre Apolônio, nervoso e conciliador, sugeriu que eu fosse à sacristia comprar o seu livro, de nome significativo e texto acessível: “O que ainda tenho a dizer e o que disseram de mim”. Voltei, livro a mão, pedi desculpa pela intromissão, cumprimentei-os e me despedi. Liguei o carro e pensei: Agi errado. Não deveria ter entrado na conversa dos dois. Lembrei, meio sem querer, de D. Aloísio Lorscheider disponível para qualquer pessoa, cristã ou não. De sua integração com as lutas sociais, sem prejuízo para a condução do rebanho.
Rememorei o dia em que troquei ideias com o seu sucessor, o filósofo D. Cláudio Hummes – em um salão de hotel – sobre o celibato dos sacerdotes, enquanto a Bíblia fala em apóstolos casados (1 Coríntios 9:5 e 1Timóteo 3:12 ). Foi uma conversa amena e ele, de forma serena, falou apenas que era obediência.
O bispo, na hierarquia da Igreja Romana, segundo o Dicionário de Liturgia, do Padre Sabino Loyola, exerce, em grau eminente, três funções: a de profeta, sacerdote e pastor. O pastor é aquele que tem paciência com os balidos de suas ovelhas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/11/2011

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