Concluí a crônica da semana passada escrevendo que estava entrando na porta dos sonhos. Foi o bastante para mexerem comigo: que porta é essa? Você poderia me emprestar a chave? O que há por trás dela? Como saber se ela existe?
Pois bem, a porta dos sonhos é a capacidade de continuar pensando alto e acreditar que as pessoas são fonte de esperança. Pessoas diferem das coisas e atos. Não é o que se compra, o carrão para disfarçar a insegurança, o jeito prepotente de beber vinho caro, sem o mínimo conhecimento de enologia, o desejo de aparecer transformando comemorações íntimas em atos públicos, ou viajando – desde que noticiado – para lugares onde não se percebe nada além da ostentação e vazio. Ter sonhos é descobrir que a festa e o espaço a ser percorrido são o que está na nossa essência, com crença ou descrença. Não há chave na porta dos sonhos, ela é como aquelas portas de saloon de filmes de cow-boy em que o machão entra com dois revólveres e sai com a cara amassada por um pacato cidadão que foi desacatado. Logo, não há como emprestar a chave. Ela não existe. A chave é atitude, não o destempero verbal, a bravata, a demonstração burguesa de poder, quando se sabe que a impermanência é a única coisa duradoura nesta vida. Por trás da porta há o que plantamos, sonhos, quimeras, devaneios que nos conduzem, por exemplo, à realização de desejos, do amor juvenil ao maduro, com coragem de romper grilhões e preconceitos temporais. Ora, se a porta é virtual, logo ela poderá existir para uns e não existir para os só preocupados em saber da vida dos outros e que não param para se autocentrar e entender seus atos, talvez infantis, toldando sua relação com a realidade. E assim, tal como comecei, sei que estes escritos são meros alinhavos, mesclados com os confrontos naturais do existir e isso dá a confiança de que não posso deixar de sonhar e repetir o que muitos já disseram e poucos atingem: sonho bom mesmo é vivido a dois, atravessando portas, virtuais ou reais.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/01/2007.

