O obsessivo Nelson Rodrigues dizia que “o amigo é um momento de eternidade”. Especialmente, digo eu, se já não compartilhamos de sua presença. Tenho saudades de amigos que não estão mais aqui. O primeiro foi Francisco Jesus Parente de Vasconcelos, na flora da juventude, cabeça voltada para o direito e no silêncio de seu apartamento. Marcelo Duque, companheiro de colégio, sempre pensando diferente de mim, mas com quem mantinha papos intermináveis no Ideal, teve abreviada sua estada por sintonizar diferente do alfa e ômega da maioria.
E a bruxa aérea foi cruel com Edson Queiroz, a quem admirava e ouvia falar da vida e negócios com sua energia, voz forte e pensamento instigante. E ela mesma, a dita bruxa, não a aérea, mas travestida em mal incurável, havia levado, pouco tempo antes, Astrolábio Queiroz, no apogeu de seu trabalho. Raul Fontenele, amigo desde menino, filho órfão que se fez varão trabalhador e capaz desde cedo e educou família exemplar, não suportou a partida da amada e, mesmo tentando, sucumbiu de mal aparentemente igual.
E a alegria irreverente que se via no gestual forte, crítica contundente e na inteligência atilada de Alcimor Rocha foi silenciada pelo ar que se fez rarefeito. E aí Tancredo Carvalho, alegria e ponto convergente de um grupo de doidinhos, se deu mal com sentimentos, calou-se, somatizou, o corpo padeceu e finou-se.
E o pior é que sempre estamos todos despreparados para esses baques nos desnudando dos atavios de amizades sedimentadas por anos. E esses baques sucessivos, próprios do ser e do fenecer, foram amarrotando pensares, sem saber nunca de onde parte a nefanda. E aí Régis Jucá, sempre lúcido, líder e de lavra médica inquestionável foi, pouco a pouco, mesmo relutante, avisando da partida deixando amigos, pacientes e familiares desarvorados.
E não há nada que apague a lembrança forte, diária e sutil de Natércia Campos, amiga da madureza, pouco a pouco, assenhoreando-se de mim, preenchendo-me de cuidados e zelos ainda ecoando no meu escafandro pessoal onde não permito impurezas do mundo contaminando sentimentos. E foram-se outros, não menores por não serem citados, mas os nomeados são o portfólio da saudade ou lembrança, formando um vazio onde nem a irreverência contínua consegue preencher, por mais que se tente fazer de conta que a dor não conta.
(esta crônica é dedicada à Turma dos Sábados, Edite Carvalho e Bia Jucá)
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/04/2007.

